A fuga para se encontrar

por Camila Goytacaz em 04/06/2013

Antes de ter filhos, eu não entendia como uma mulher poderia dizer que não tinha tempo para si desde que teve seu bebê. Não compreendia como um ser tão pequeno poderia ocupar tanto o dia de modo a deixá-la sem condições de fazer mais nada. Me tornei mãe e não demorou muito para entender porque a mãe de bebê acha tão difícil cuidar de si. Não é uma questão apenas de tempo – sim, claro, existe a dificuldade prática, logo comprovei que alimentar, embalar, banhar, enfim cuidar do bebê exige mesmo quase vinte e quatro horas, em que dia e noite não se separam. No entanto, concluí que nos dedicamos a nossos filhos com tanta intensidade também por nossa vontade de acertar, nossa curiosidade em aprender e nosso ímpeto quase natural de responder às demandas deles. E muitas vezes, queremos responder a todas as demandas, o tempo todo. Enroladas em uma rotina de fraldas, mamadas e descobertas, vamos seguindo, sem ver o tempo passar, até que, um belo dia, a pergunta surge: tenho me dedicado tanto a meus filhos, mas qual foi o último momento que dediquei a mim mesma?

Se sabemos que pais ausentes criam filhos carentes, então o que dizer dos pais presentes na vida dos filhotes, mas que tornam-se adultos carentes? Quantas vezes me senti carente, enquanto dava tudo de mim como mãe! As necessidades de meus filhos “ticadas”, totalmente atendidas e as minhas… que minhas? Quais são mesmo? Do que gosto? Do que preciso? E aquelas coisas que adorava fazer e abandonei? Horas de leitura, o encontro com uma amiga, me perder em livrarias, pintar as unhas. Cada mulher sabe os pequenos prazeres que enchem sua caixinha de segredos. Normalmente são coisas simples, mas que a fazem sentir-se em paz. E para os homens vale a mesma coisa! Jogar bola, tomar um chopp com amigos, assistir filme ou mesmo lavar a garagem! Vou contar uma coisa. Aqui em casa, depois que a segunda nasceu, a garagem passou a ser lavada com mais frequência. Aquele espaço renegado da casa tornou-se o escape que meu marido precisava para ficar um pouco sozinho, ouvindo rock n roll enquanto lavava garagem e quintal e pensava na vida.

Quando minha filha estava com seis meses, me achei completamente exausta da rotina diária de cuidar dos dois. Estar “na função” todas as noites, dando banho, jantar, organizando brincadeiras e colocando para dormir dois pequenos pode ser tão cansativo quanto escalar uma pequena montanha todos os dias. Com a desvantagem que, em vez de encontrar uma linda vista lá do alto, é uma pilha de trabalho que te espera em cima da mesa quando os dois finalmente dormem. Se a missão cumprida dá sensação de vitória em alguns dias, em outros, as dificuldades naturais, como a falta de cooperação da criança com os horários, a bagunça que nos deixa atordoada ou mesmo o fato de que é preciso respeitar o tempo delas para fazerem as coisas (quem já viu um filho enrolando para entrar no banho sabe do que estou falando) pode nos deixar esgotadas e irritadas. Algumas tardes, ao anoitecer, tive de vontade de chorar apenas por vislumbrar tudo que vinha pela frente: as tarefas necessárias e cansativas que me esperavam para que o dia pudesse terminar. Me peguei pensando em como era a vida antes deles e sentindo saudades de sair para tomar um café acompanhada de um livro.

Planejando sua fuga

E foi assim, chocada ao ver que eu já não me lembrava mais de como era sair com uma bolsa pequena, é que passei a olhar de uma outra forma para as exigências da mulher em mim que queria dar um tempo de filho. Percebi que precisava instituir em minha rotina um tempo sem ninguém puxando, perguntando, mamando ou chamando minha atenção. Um tempo em que minha atenção iria para… mim.

Comecei a colocar em prática meu plano de abrir espaço em minha vida para mim mesma. O primeiro passo foi articular um esquema de fuga que me deixasse confortável. De nada adianta sair e ficar agoniada. É fundamental que as crianças estejam bem. Então, no início, comecei marcando encontros estrategicamente agendados com amigas na hora da soneca da bebê. Saía e a deixava dormindo. Voltava relaxada, cheia de idéias, e me surpreendia ao encontrá-la sorridente. Fui confirmando que o passeio fazia bem às duas. Percebi que meus filhos também faziam uso deste espaço. Não estou dizendo que precisam ficar longe da mãe – afinal, minha mais nova tem um ano, não acredito que uma criança desta idade esteja precisando de individualidade , pelo contrário, ela tende a exigir 100% a figura materna, pois seu mundo é a mãe. Mas sinto que, conforme tenho momentos de fuga, escapes onde alimento o corpo, a alma, a mente ou o coração, volto mais leve, renovada e até mais amorosa, e as crianças então se beneficiam desta mãe que retorna com novas energias, com uma entrega mais bonita.

485465_469334696477320_371375943_nBem-sucedida nas saídas rápidas, resolvi investir em momentos de indulgência para mim. Uma tarde inteira em minha Casa de Chá preferida, lendo, estudando ou escrevendo, faz com que Pedro e Joana encontrem uma mãe muito mais legal na hora do jantar. Meu humor melhora e até visualmente gosto mais do que encontro no espelho pois, para sair me produzo para o encontro comigo mesma. Conforme o bebê cresce, dá para fazer eventuais cursos aos finais de semana, como os que fiz de desenvolvimento pessoal, que me trouxeram descobertas incríveis. Acho que nem é preciso dizer como este processo beneficia a relação com meus filhos! Uma mãe mais conectada consigo, que medita, reflete, caminha e exercita, é uma mãe que tem muito mais para dar. A troca torna-se mais rica e prazerosa.

Depois de craque nos passeios à tarde, veio a hora de testar as saídas noturnas. Elas são mais raras e complexas, exigem sofisticado planejamento da logística das crianças, envolvimento dos avós, e são mais suscetíveis às interrupções. Depois de três horas de boa conversa, bom vinho e boa comida, chegou em casa um casal feliz, carregando filhos para a cama, para dormirem aconchegados.  Nem sempre é possível que a fuga aconteça em casal. Muitas vezes é justamente entre o casal que o revezamento acontece: marido fica com crianças para a esposa fazer uma caminhada, esposa fica com as crianças para o marido dar uma descansada. É muito bom poder jogar em parceria e contar um com o apoio do outro. Mas, é claro, é preciso que o casal tenha fugas juntos, para a saúde do relacionamento amoroso.

Momentos só seus em casa também

É ótimo que os pais conversem e confessem suas necessidades e seus planos de fuga. Coisas simples podem fazer enorme diferença. Aqui em casa, por exemplo, instituímos duas soluções que vem tornando os finais de semana menos cansativos. A primeira é o revezamento da hora extra na cama. No sábado um levanta cedo e “some”com as crianças para o outro poder dormir por mais algumas horas, no domingo invertemos. Solução eficiente que salva dois adultos cansados, sem ajudantes e com crianças eletrizantes. A outra são os banhos musicais. Deixamos em nosso banheiro um aparelhinho de som com o ipod já conectado. Depois de uma semana de banhos corridos, sempre cercados de filhos e com horário a cumprir, um fica com as crianças enquanto o outro vai para o chuveiro cantar. É impressionante como uma boa música e um banho demorado podem renovar uma pessoa! Hoje mesmo saí novamente pronta para a vida depois de 20 minutos ao som de Beatles. Privacidade e paz. Necessidades que estou aprendendo a reconhecer e respeitar.

Conforto, descanso, cultura, informação, romance, agito, qual a sua necessidade? Deixe seu coração responder. Quando souber a resposta, conte a seu filho, explique que vai sair um pouco para atender a si própria, e que logo volta, pronta para atender a ele. Diga que vai dar uma fugidinha, mas é apenas para se encontrar.

 

 

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Um comentário

  1. Suely Holanda disse:

    Achei muito interessante este artigo. Meus filhos já estão criados, inclusive vou ser avó. Sei muito bem o que é não ter tempo para si mesma, passei muitos momentos de carência,cansadíssima sem tempo nem de me olhar direito no espelho. Aos poucos fui me conscientizando que precisava de um tempo pra mim senão eu não teria mais energia para cuidar de meus filhos. Já estava separada mas meus sogros que eram maravilhosos comigo me ajudaram e muito a ter um tempo só pra mim. E Claro, tanto eu quanto meus filhos ganharam com isso. Adorei. Abços. Suely

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