As coisas que a gente não diz

por Camila Goytacaz em 18/02/2013

Quando somos crianças aprendemos a linguagem, mas exercemos sem domínio.  Falamos da forma como conseguimos e sem filtros. Por isso é comum acharem engraçado o que as crianças dizem e, por vezes, até constrangedor. Com muito esforço de nossos pais e também imitando as vozes da televisão, dos outros adultos e da professora da escola, passamos a nos comunicar melhor. Frases mais completas, estruturas mais complexas, nomes para isso e para aquilo, para fulano e para beltrano. Bom, feio, idiota, certo, errado, muito, pouco,  e… finalmente chega o dia em que estamos como (quase) todo mundo: falando do que vai à mente, esquecendo o que está no coração.

Motivados pelos sentimentos como raiva, rancor, mágoa, tristeza e chateação, conseguimos com nossa elaborada linguagem de adulto, dizer coisas muito duras, devolver ao outro tudo aquilo que bateu em nós, potencializado. É como se, ao ouvirmos o que não agradou, rapidamente conseguíssemos liquidificar e extrair um caldo à altura: acusações e humilhações para atacar o que nos fez sentir assim. Não precisa necessariamente ser uma pessoa, pode ser uma coisa, como o trânsito, a pedra que te fez tropeçar ou, o pior dos inimigos, você mesmo. Ouvi ontem mesmo uma história de um homem que se perdeu e chegou atrasado ao compromisso e, enervado com sua falha, começou a se bater, verdadeiras pauladas mentais: seu idiota, como fez isso de novo? Sua besta! Bem-feito, agora aguenta!

É assim que falamos conosco mesmos. Imagine, agora, como são tingidas de agressão as conversas que temos com pai, mãe, filho, amigo, colega do trabalho, chefe, vizinho e cunhado? O que dizemos (e o que pensamos) quando algo acontece? Quando a comunicação simplesmente não flui ou quando o conflito aparece? Muito comum também são os questionamentos intercalados com responsabilização do outro e uma pitada de vitimização:  O que você pensa que é? É sua culpa que estou assim. Olhe o que fez comigo.!Como pode fazer uma coisa destas? Eu não mereço. Você é ingrato.

Sim, dizemos, com nome e sobrenome, tudo que o outro fez, disse, não fez, não disse, deixou de pensar, de fazer, de sentir, de transformar em nós. “Ele me fez perder tempo”. Há um mês eu acharia perfeitamente possível que isso fosse verdade. Hoje, sei que não é real. Porque fui apresentada à Comunicação Não-Violenta.

A  Comunicação Não violenta”é sobretudo um processo de entendimento que facilita a harmonização de suas necessidades com as necessidades de outras pessoas, de uma maneira empática”, explica nosso professor Sven Archangelo.

Eu, que sempre fui falante e articulada, ao conhecer a CNV, senti vontade de nunca mais abrir a boca. Descobri que em meio à lindas palavras, saiam da minha boca cobras e lagartos.

Não será possível aqui, neste artigo, explicar o que é CNV e como praticá-la. Não me sinto apta a fazê-lo, ainda sou ouvinte, aprendiz desta mágica do relacionamento. Mas, quem sabe, eu consiga te contar como este processo de auto-conhecimento me fez olhar para minha relação com os outros – especialmente com os que mais amo – com outros olhos.

É importante para mim

Esta frase é um pilar na CNV. Meu Deus, quanto tempo perdemos falando sobre o que achamos, como as coisas são, o que aconteceu, e acabamos esquecendo, ou se quer considerando a possibilidade de dizer: é importante para mim. E agora a pancada máxima, que me tocou lá no fundo.  Falar dos sentimentos. Parece óbvio, não é? Mas não fazemos. Eu me sinto triste. Me sinto confuso. Ao invés disso, a gente segue explicando, contando aquela longa história, sobre quem deixou de fazer o quê pra quem, sobre como queríamos que fosse assim ou assado e sobre as expectativas quebradas. O que sentimos? Onde estão os sentimentos? Soterrados numa pilha de palavras! Encontre-os, expresse-os, e assim tudo começa a clarear.

Necessidade do amor

E então, com suavidade e simplicidade, a CNV vai nos conduzindo à raiz da troca humana: as necessidades. Procuramos pessoas e coisas para atender nossas necessidades. Das mais vitais, como alimentação, conforto, segurança, às mais profundas, como amor, prazer, comunhão. Somos seres em busca de atendimento para nossas necessidades. E quando duas pessoas estão discutindo, tire os pontos de vista, tire as diferenças, as palavras, as ofensas, as acusações, tire os discursos todos e verá dois seres buscando atender suas necessidades. E é neste momento que a mágica acontece. O surgimento da empatia. Um sente o que o outro sente. Encontram um espaço comum. E sentam-se ali para conversar.

No centro da família, no convívio com nossos filhos e nossos pais, é mais difícil praticar a comunicação não-violenta. Tanta história, tantas emoções, tanta vivência compartilhada torna difícil encontrar clareza para enxergar as necessidades e não fazer julgamentos. Pois eu penso que é exatamente neste núcleo que devemos praticar. Olhar quem está ao nosso lado e oferecer empatia. De que forma? Simplesmente reconhecendo-o, pleno em suas necessidades.

Fui colocar em prática com meu filho. Quando ele se sentou no canto da sala e me disse que não queria ir à consulta médica, primeiro observei qual seria minha conduta habitual. Na posição de genitora, daria todas as explicações racionais “mas precisamos” ou “eu também faço muitas coisas que não gosto”ou “vai ser rapidinho, você vai ver” ou até mesmo uma chantagem enrustida como “saindo de lá, que tal um sorvete?”Em dois segundos visualizei todos os truques que poderiam ser lançados de dentro da minha manga e atirados pra cima do pequeno de 4 anos, truques habituais, um ou outro inédito, mas todos conhecidos na rotina de não ouvir e não falar de sentimentos. Então resolvi usar o que aprendi na CNV. E disse, simplesmente: não quer ir, filho. É chato? Você se sente chateado quando precisamos ir ao médico? E para minha surpresa, a expressão facial e corporal dele, imediatamente, mudou. Os olhos arregalaram com a minha “adivinhação”. O corpo, que estava ligeiramente encolhido, como que tentando se enrolar em uma bolinha, se abriu ligeiramente. E ele, com suavidade e quase em câmera lenta, levantou, segurou minha mão e disse, baixinho: vamos, mamãe.

Eu não precisei convencê-lo. Não precisei explicar e nem mesmo entender. Eu só mostrei empatia. E dei meu amor. Estabeleci uma conexão. Como disse nosso sábio facilitador Sven Archangelo, ofereci uma conexão banda larga. Tão simples e tão difícil!

Meu pedido

Então, depois de entendermos quais as necessidades que temos e as que os outros têm, depois de eliminarmos julgamentos e sofrimentos, depois de nomeados os sentimentos, finalmente vem o maior exercício de humildade que jamais imaginei que fossemos aprender neste curso: fazer pedidos. Não, você não vai para o conflito para cobrar, para exigir, para jogar na cara, para falar do que o outro te fez. A coisa é tão sua e tão com você que chega uma hora que o outro perde a sua força, ele não tem poder de mudar o que você sente e pensa, ele tem apenas a possibilidade de se conectar com você em profundidade, se assim quiserem. Para mim, aprender a falar de como me sinto e o que preciso foi difícil, mas aprender a pedir foi um enorme desafio. Novamente, recorri aos episódios do dia-a-dia e testei na prática. Mais uma vez, veio a surpresa: quando consegui fazer um pedido claro, sem interpretações, direto e reto, fui atendida. E também se não fosse atendida, ainda assim, ficaria aliviada, por me entender e expressar. Os fatos foram vistos, os sentimentos respeitados, as necessidades escutadas.

Vamos resolver todos os problemas do mundo com CNV? Acho que não. Mas podemos começar a estabelecer um relacionamento mais saudável, mais amoroso, mais verdadeiro, com as pessoas a nosso redor. Relacionamentos que priorizam o essencial. Para mim, a CNV será uma importante ferramenta para fortalecer o exercício da maternidade da forma como acredito: mais consciente, com mais verdade e sem violência. É este meu pedido, que agora fica registrado aqui!

Para saber mais sobre a Comunicação Não-Violenta:

Livros: “Comunicação não-violenta” -  Marshall Rosenberg, Editora Ágora.

“Não seja bonzinho, seja real – como equilibrar a paixão por si com a compaixão pelos outros”. Kelly Bryson, Editora Madras

Veja também:

3 comentários

  1. Denyse disse:

    Obrigada pelo texto e pelo riquíssimo conteúdo!
    Pude ter grande percepção sobre como me comunico
    e como me reorganizar e reaprender!
    Excelente!

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  3. alessandra cunha disse:

    Muito obrigada por esse texto! Veio de encontro a coisas que realmente acredito, mas por distração minha devido a tantos atributos diários tenho deixado de lado. As vezes me perco no que é mais comum, e é importantíssimo ter contato com esse tipo de pensamento para me auto resgatar.
    Tenho um filho de 4 anos e um bebe de 1 mes.

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