Carta para minha amiga grávida

por Camila Goytacaz em 05/09/2013

Para minha amiga grávida,

Assim que soube que você estava grávida, fiquei feliz, mas, me despertou certa agonia. A primeira dúvida: você sabe que tem escolha? Sabe que não precisa fazer “o que todo mundo faz”? Agoniada com minhas dúvidas sobre o quanto você está informada sobre os temas gestação, parto e maternidade, comecei a questionar. Preciso entender o quanto está pronta para desaprender o que, de forma massiva nos ensinam, para, então, ouvir o que ninguém (ou quase ninguém) conta. Hoje me encontro neste delicado papel de ser a pessoa que quer revelar, mas, ao mesmo tempo, não quer invadir seu espaço, ou te desiludir neste momento mágico e sensível e, principalmente, não quer perder sua amizade. Você é importante para mim e este assunto também. Preciso encontrar um jeito de cuidar das duas coisas, por isso escrevo esta carta.

Seu parto

Ao menos que você lute, que se informe, que se prepare muito, internamente, e principalmente de forma prática, cercando-se da equipe certa, é difícil ter um parto legal. Você pode até ter um parto normal, daquele tipo em que fazem um monte de procedimentos desnecessários com você e seu bebê, como, por exemplo, corte do cordão umbilical antes de parar de pulsar e corte com bisturi no seu períneo (episiotomia). Entretanto, o mais provável mesmo é que você seja submetida à uma cirurgia que não queria. E por um tempo pode acreditar que esta era a melhor (e a única) forma segura do seu filho nascer. Mas também poderá se sentir frustrada, chateada e até traída.

Vínculo

Por que isso importa? A começar, porque o vínculo com seu bebê pode ser comprometido em função desta não-escolha que você fez, que fizeram por você, de ser cortada. Pior, seu bebê será incomodado e pode sentir-se abandonado se, na hora do nascimento, for tratado como são quase todos os que não tem um atendimento humanizado. Tratado como mais um. Segurado pelas pernas como frango, seus olhos sendo abertos a força para receber o inútil e ardido colírio na primeira hora de vida, seu corpo esfregado, aspirado, ensaboado e manipulado –  muito, muito mais do que ele precisa – e, pior, afastado de você. Sim, ele acabou de nascer, mas, ao menos que você planeje meticulosamente e se empodere de seu parto, ele não irá para os seus braços. Mesmo sendo óbvio que você é a mãe e que isso é tudo que vocês dois precisam, se for aqui no Brasil, o caminho mais comum do protocolo não leva a você. Infelizmente pode ser que ele conheça várias outras pessoas e ambientes antes de sentir seu cheiro e seu toque. Pessoas que ele poderia perfeitamente conhecer depois, ou mesmo nunca. E, acredite, pode até ser que ele seja alimentado, longe de você e sem seu consentimento. É estranho, é frio, é assim que acontece.

Outra forma de nascer

Então esta carta é para dizer que há sim uma outra forma de começar. Há uma gravidez em que é menos importante a decoração do quartinho, o modelo do carrinho ou o enxoval. Uma gravidez em que o foco é na sua ligação com o bebê, no olhar para dentro, na busca pela equipe humanizada e pela doula, no exercício de criar coragem para romper com o sistema. Uma gravidez em que nunca é cedo para conversar sobre o parto, em que o bebê não é grande demais e não fica pronto em quarenta semanas. Ele está pronto quando estiver e virá como quiser. Uma gravidez em que tudo flui bem, pois seu corpo foi feito para isso. A gestação em que você prepara menos a cabeça e mais o períneo. Que termina com você sentindo contrações, passando horas na partolândia, ficando na posição que tem vontade e, finalmente, seu bebê nascendo com você e através de você. Ah, sim, e o profissional de assistência ao parto está ali, próximo, sem quase nada fazer, a não ser, assistir. Nesta história o bebê vem imediatamente para o seu colo, e só sai quando você quiser. O pai participa ativamente do parto e do encontro com seu filho. Muitas vezes não há médicos, apenas parteiras e doulas. Não há remédios, ninguém é medicado, porque não temos doentes, apenas uma mãe e um bebê que acabaram de nascer. Você se levanta horas depois de parir e pode fazer o que bem quiser, está inteira e disposta. E, ao chegar em casa, confiante, saudável e caminhando, se sentirá segura para decidir como quer que seu bebê durma e o quanto quer ficar conectada com ele. Terá tranquilidade. Talvez não demore a perceber que amamentá-lo o tempo inteiro – ao contrário do que dizem – pode ser muito compensador e prazeroso. Aliás, o parto mesmo pode ser cheio de prazer, e é normalmente relatado pelas paridas (me incluo) como uma experiência maravilhosa, muito mais associada à superação e à descoberta do potencial feminino do que à dor ou ao sofrimento. Prazer em parir, em maternar, em amamentar, prazer em dizer “não, muito obrigada”, às soluções enlatadas do sistema. Muito prazer.

As trilhas

Joana 31Ufa! Acho que era isso que eu queria te contar. Há escolhas e há algumas trilhas para atravessar o portal da maternidade. Como mãe e amiga, estou aqui, do outro lado, a te esperar, e ficarei muito feliz se te vir chegando pela trilha do prazer, da maternidade do aconchego, do vínculo, do instinto, da mulher que permite que sua natureza feminina aflore. Se, no entanto,  você vier pela outra trilha, aquela com corte e cicatriz, mais longa, mais tortuosa, ainda assim, te espero por aqui, seja bem-vinda, futura mãe. Que bom que você está chegando! Fique tranquila, você não está sozinha. Conte comigo.

Camila Goytacaz

Se quiser saber mais sobre a trilha do prazer em gestar, parir e maternar:

Livro: Parto com Amor – www.partocomprazer.com.br

Filme: O Renascimento do Parto  – http://www.orenascimentodoparto.com.br

Encontros: GAMA, Grupo de Apoio à Maternidade Ativa.

Sites recomendados:

GAMA – Grupo de Apoio à Maternidade Ativa

Parto do Princípio – Grupos de Apoio no Brasil

Matrice – Ação de Apoio à Amamentação 

Médicos São Paulo: www.casamoara.com.br ou www.clinicatobias.com.br

Doulas: www.doulas.com.br

Matérias que fiz sobre o tema:

Gestação, bebê, parto, maternidade – http://bebe.abril.com.br/canais/mamae-e-bebe/

Sobre o filme O Renascimento do Parto: http://omelete.uol.com.br/cinema/o-renascimento-do-parto-critica/#.UgQWsZI3saB

 

 

 

 

 

 

 

Veja também:

Um comentário

  1. Tamires disse:

    Linda carta, Camila!
    Acho que não é direcionada somente para a amiga grávida, mas também para a amiga tentante, para a amiga que pensa em algum dia parir. Porque essa luta começa agora, começou ontem. Todos os dias temos de enfrentar esse sistema para que tenhamos mais acesso e outras amigas tenham informação de qualidade.
    Muito obrigada pela sua contribuição! Você está transformando o mundo!

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