Desmame conduzido

por Camila Goytacaz em 18/06/2014

Minha referência de desmame não poderia ser melhor. Tenho aquela linda história do desmame natural do meu primeiro filho, perto dos dois aninhos, que contei aqui. E com esta certeza de que tudo aconteceria também naturalmente com a segunda filha, segui amamentando Joana, em livre demanda e com muito prazer.

Acontece que na maternidade, em muitos momentos, o segundo filho coloca em dúvida algumas certezas que tínhamos. O que deu certo com um nem sempre funciona com outro. Filhos nos mostram como as pessoas são diferentes.

O desmame da Joana foi perfeito para me ensinar que nem sempre processos naturais acontecem como esperamos, pois nós mesmas também somos parte da natureza. Explico: antes que ela “me” desmamasse, eu senti vontade de encerrar este ciclo. Ela estava com dois anos completos e alguns meses, mas continuava mamando várias vezes durante a noite e algumas vezes durante o dia. As mamadas do dia não me incomodavam, eram espaçadas e eventuais, mas as da noite estavam realmente me esgotando. Eu queria dormir.

A conversa

Foi em uma noite fria e com ela ao peito que eu decidi começar a conversar sobre o tema. Confessei que estava cansada e sinalizei que sentia que era chegada a hora de passarmos para uma nova fase. Ela não gostou. Pediu para mamar imediatamente e mamou muito durante todas as noites da semana. Entendi a resposta: Joana não estava pronta.

joana mamandoPara mim era muito importante que o processo acontecesse da forma mais harmônica possível, por isso eu aguardei até que ela sinalizasse que ia topar o acordo. Então, na semana seguinte, tentei uma nova conversa, falei dos meus sentimentos, ofereci empatia, muito abraço, colo. Olhando no olho, eu disse: o mamá vai acabar, filha, vem chegando ao fim esta nossa fase que foi tão maravilhosa. Ela chorou sentida. Depois mamou. Nada disse, mas no olhar notei que de alguma forma, ela estava começando a entender. Tivemos mais algumas conversas, até que percebi que poderia ajudá-la de forma mais prática a aceitar minha decisão.

joana mamando2A primeira etapa foi identificar a relação atual estabelecida com a amamentação: não foi difícil, estava totalmente associada a dormir. Comecei a investir em apresentar outras formas de conforto, como colo, carinho, palavra. Às vezes funcionava, às vezes, não. Na hora do cansaço, ela se irritava e exigia peito. A cada mamada, uma conversa cochichada sobre como a fase estava acabando, mas que eu estaria sempre aqui. Seguimos algumas semanas assim, tivemos algumas “últimas mamadas”, até que eu parti.

A separação

O destino me fez sair de casa por duas noites, a trabalho, e Joana chorou alto pedindo mamãe. Depois dormiu. Aproveitei a oportunidade e tomei coragem para fazer algo que queria há tempos: um retiro. Me ausentei da família por três noites e quatro dias, na mesma semana em que viajei a trabalho. Durante este período, Joana e meu filho mais velho, Pedro Luis, ficaram com o pai e os avós. Em algumas noites ela dormiu bem tarde, em outras reclamou, teve dificuldades para pegar no sono ao acordar durante a madrugada. Na hora de deitar, meu companheiro apelou para o filminho, que ora funcionava, ora a irritava. Surpreendentemente, em uma das noites ela sozinha despediu-se dele, foi para a cama, deitou e dormiu. Ao todo foram seis noites sem mamar. Em todas, de alguma forma, ela dormiu. Não passou uma noite em claro, mesmo que tenha custado um pouco mais a adormecer. O desmame estava acontecendo.

O reencontro

Assim que me viu, ela pediu mamá. Com o coração apertado, precisei dizer “O mamá acabou, filha. Você aceita um abraço, uma água, um carinho?” E assim fomos seguindo. Ela aceitando que eu não mais a amamentaria, eu aceitando as reações nem sempre amigáveis que vieram com o término da amamentação. Houve momentos em que ela ficou muito brava e me pediu até para sair de perto. Uma noite me marcou: estávamos há horas no processo de “fazer dormir” cantando, lendo, embalando, de repente, ela me deixou. Foi até o corredor e dormiu em pé, encostada na parede, mãos no rosto, cara amarrada. Me ofereci para acolher, tentei ficar perto, mas ela deixou claro que queria ficar sozinha.

Neste momento eu percebi que deixei de ser a “solução” dos problemas dela (sono, insegurança, cansaço, tudo eu resolvia facilmente com peito) e estava me tornando apenas uma observadora. A mim agora cabia estar perto e me oferecer para dar apoio enquanto ela, sozinha, encontraria as soluções. A cada noite tentávamos um esquema diferente. Alguns davam certo, outros nem tanto. Em todas as noites, no entanto, cedo ou tarde, ela dormia. E assim que dormia, eu falava ao pé do seu ouvido: você conseguiu, querida. Você já sabe dormir sem mamar, sem filminho, sem história, sem ninguém, apenas dormindo. Você consegue. Me orgulho de você. Confio em você.

Aos poucos ela foi parando de mencionar o mamá, aceitando o aconchego. Fomos descobrindo formas para facilitar o relaxamento na hora do soninho. Tudo com muito amor, atenção, consciência.

A redescoberta

A fase em que Joana me repelia felizmente passou rápido e deu lugar à menina doce que aprecia o colo, o contato pele com pele, que reconhece o peito como um aconchego para deitar seu rosto, encostar o ouvido e adormecer. Completamos um mês oficialmente do desmame e agora ela pede para tocar, faz carinho no seio, abraça, beija, como quem demostra seu eterno amor e gratidão. Ela finalmente aprendeu a dormir sem mamar e eu aprendi a conduzi-la na hora do sono com músicas relaxantes, histórias, colo, carinho. Nos redescobrimos! Estabelecemos uma nova conexão, tão forte e tão linda como a que tivemos durante os dois anos de amamentação. Crescemos juntas e superamos a dificuldade que se apresentou na fase de transição para o desmame, respeitando e acolhendo uma à outra.

Hoje eu honro cada mamada que dei à minha filha, valorizo cada dia que passei com ela ao seio, cada soneca “pendurada” e cada carinho que recebi de sua pequena mãozinha. Sou grata à Joana por tudo que me ensina e me sinto feliz por termos conseguido desmamar – talvez não naturalmente, já que o processo não partiu dela – mas certamente organicamente, já que atravessamos a ponte juntas e muito próximas.

Para as mães que estão vivendo algo parecido, alguns conselhos:

  • Tente deixar o processo acontecer naturalmente, ou seja, partindo do seu filho. Vivi as duas experiências – partindo da criança com meu filho mais velho e partindo de mim com minha caçula – e posso assegurar que quanto mais natural, menos conduzido, mais fácil. Espere a criança estar pronta e tudo fluirá com tranquilidade.
  • Quanto mais gradual, melhor. Primeiro, elimine as mamadas que parecem menos essenciais ao seu filho, naqueles horários em que ele tem outros interesses. Observe. Se for tudo bem, vá lentamente eliminando mamadas, propondo alternativas, até que a amamentação seja apenas pontual e não fundamental para vocês.
  • Durante o processo do desmame, em um dia sensível, se a criança sentir falta do contato com o seio, uma alternativa é usar um microporo ou bandaid no bico do seio. Assim, ela terá o aconchego, mas não tentará mamar.
  • O desmame não precisa ser um processo linear. Assim como eu, você pode fazer uma tentativa e, se sentir que a criança não dá conta, que você não dá conta, ou simplesmente que as duas ainda não estão prontas, recomendo seguir mais um pouco, amamentando e conversando por dias ou semanas, até a hora chegar naturalmente.
  • O desmame não deve acontecer durante um período difícil na vida do seu bebê ou da família como mudança, doença, ingresso na escola, novidades, saltos de desenvolvimento. É um processo importante e forte, pois ela se separa fisicamente da mãe, por isso o ideal é esperar tudo estar tranquilo e principalmente você estar bastante segura para, caso seja esta sua escolha, tentar conduzir o processo, lentamente e com muito amor.

Camila Goytacaz

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6 comentários

  1. Janis Souza disse:

    Boa tarde!

    primeiramente queria dizer que admiro a sua garra, sua força de vontade e principalmente seu amor pela sua filha. Muitos criticam quando fazemos algo do tipo, mas pouco tem a sensibilidade de sentir o quão nos é difícil dizer não as vezes e pelo seu relato, naquele dia, em que sua pequena dormiu no corredor, imagino a dificuldade do que passou. Eu tive a minha segunda filha dois anos depois que a minha primeira tinha falecido, e quando ela se foi, meus seios ficaram cheios de leite por muito tempo, nenhum remédio para seca-lo funcionou. Assim, quando dei a luz a Lara, eu sonhava em poder alimentar meu bebê com meu leite, e foi o que fiz, e por 3 anos e meio, acho que no meu caso a pessoa a ser desmamada fui eu rs
    Foi do dia pra noite, ela simplesmente disse que não queria mais, que já era uma moça, e queria o leite no copo!
    Estou na tentativa do meu terceiro baby agora e sei que ele me trará uma nova experiencia, pois como você salientou no seu texto, cada filho é diferente do outro!
    Amei!
    Mais uma vez parabéns!
    Beijos

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  2. Grazielle disse:

    Me emocionei muito lendo seu relato. Estou com.meu filho de 1 ano e 8, e tentando iniciar este processo, e de chorar!!!

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  3. Luana Martiniano disse:

    Li, ri e chorei, tudo ao mesmo tempo! Tudo isso me faz pensar na dadiva de maternar! Relatos como esse me fazem perseverar e ter mais seguranca pra cuidar dos meus filhos com toda liberdade pra dar o tanto de amor que eu quiser! Sem culpa!

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  4. Luana Martiniano disse:

    P.S.: Obrigada, Camila, por compartilhar essa e tantas outras maravilhas!!

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  5. Mariana Carneiro Ardente disse:

    Estou em prantos… Minha filha está com 1 ano e 6 meses e amamentar está sendo muito cansativo pra mim. Trabalho fora e ela passa quase o dia todo na creche. Quando chego a noite, ela pede desesperadamente pra mamar. Só dorme mamando e a noite acorda pra mamar pelo menos 2 vezes. Mas o pior é durante o fim de semana, que ela não me larga o dia inteiro, as vezes mal consigo ir ao banheiro (quando vou é com ela no meu colo, mamando!). Já li muitos textos sobre desmame, mas não consigo me imaginar fazendo nada q possa levar minha filha ao sofrimento, tb não consigo me imaginar numa situação como a q vc relatou, dela me repelindo (é preciso muita força, acho q eu não tenho). Semana passada tomei uma decisão que melhorou um pouco nossas noites: acabei com a cama compartilhada, pois sentia que se uma de nós nos mexêssemos e ela sentisse meu cheiro, mesmo dormindo puxava meu peito pedindo pra mamar. Ela agora dorme num colchão do lado de nossa cama, no chão. Deu certo, há 1 semana ela está acordando em horários fixos, dou peito e ela volta a dormir rapidamente, volto pra minha cama e continuamos a dormir. Acho q estou menos preparada q ela pro desmame, vou deixar acontecer no tempo dela.
    Obrigada pelo texto! Beijos!

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  6. Katia Cristina disse:

    Também chorei! estou me preparando para esse momento.Muito bom poder conhecer sua experiencia narrada de maneira sincera e simples.
    Um beijo!

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