É permitido gritar

por Camila Goytacaz em 24/07/2012

Vai filho, pode gritar. Ele me olhava, pestanas enormes sem piscar. Aproveite, Pedro, porque aqui a gente pode gritar bem alto. Incrédulo, apenas continuava me olhando. Resolveu experimentar. Deu um grito tímido. Expliquei mais detalhadamente: sabe, filho, na grande maioria dos lugares que frequentamos, na cidade, não podemos mesmo gritar alto, pois isso incomodaria outras pessoas. Mas aqui no sítio, com este espaço tão amplo, em que vemos apenas a linha do horizonte, você pode gritar o quanto quiser, não incomodaremos nenhum vizinho. Apenas os animais ouvirão, mas estão por toda parte, não vão ligar.

E para provar meu ponto de vista, dei um grito bem alto. Ele gostou, então resolvi fazer de novo, mais alto ainda. E me surpreendi com a sensação boa. Em seguida, ele soltou um “papai” bem alto e feliz. E depois outro, e depois outro. Escolheu esta palavra porque estávamos esperando por seu pai, que entrou em casa, mas já vinha se juntar a nós. Pedro Luis gostou de ouvir o retorno do eco e procurava girando, braços abertos em torno de si mesmo, o som que parecia sair das montanhas.

O que me deixou intrigada, no entanto, foi que Pedro parecia não acreditar que o pedido, tão atípico, estivesse vindo de mim. Inúmeras vezes (ao dia) me ouve dizer: “Pedro, não grite”. É quase automático meu impulso por conter suas manifestações de grito, primeiro porque realmente me incomodam, e também claro, por convenção social, não é bonito crianças berrando. Especialmente desde que Joana nasceu, ele passou a falar alto com mais frequência, provavelmente para se sobressair, e passei também a chamar mais sua atenção.

A verdade é que, eu, que sempre me orgulhei – e me esforcei muito – para ter um filho educado e que se comporta bem, fui eficiente em rezar o terço do “não” – não pode gritar, não pode correr aqui, não pode por a mão nos objetos, não pode subir na mesa, não pode brincar com as coisas que parecem brinquedos, não pode um monte de coisas. No entanto, percebi que andamos tão empenhados em ensinar o que não pode, não deve e não fica bem, que acabamos nos esquecendo de liberar as crianças para fazer estas coisas em algum momento, em algum lugar. Deve existir, afinal, um espaço em que podem subir na mesa, correr loucamente por entre as coisas, mostrar a bunda e liberar o grito. E se não há este local, então cabe a nós criá-lo.  Que mundo chato e cheio de não-podes é esse, em que meu filho não bota fé quando eu lhe digo que agora pode sim gritar bem alto? Que regras são essas que criamos que nunca podem ser transgredidas? Se defendemos veemente o mantra “tem hora pra tudo”, para comer, para tomar banho, para ir à escola, para dormir, então não deveríamos incluir nesta escala a hora de transgredir? Hora e lugar para bagunçar de verdade, de um jeito que tudo pode?

Eu havia me esquecido de liberar meu menino, de vez em quando, para a desordem. Talvez eu até deixasse que acontecesse, naturalmente, meio que fingindo não ver, mas não verbalizava, não dava a concordância, a aceitação da peraltice. Então, em nossos dias no sítio, quase sem querer, quando chamávamos pelo pai dele, eu percebi como é importante que a gente dê o sinal verde para serem crianças, simplesmente. Resolvi fazer um teste, segui em frente e liberei, declaradamente, outras farras. Deixei pular na cama e jogar tudo no chão, se sujar na lama, sair de pijama, se arrastar no chão, dançar na chuva, jogar pedaços de pão dentro do suco para depois tomar tudo, correr sem direção e se esconder bem longe de nossas vistas. Embora possa parecer caótico, foi tudo combinado da forma mais simples que há: agora podemos, agora não podemos mais. E para minha surpresa, deu certo.

O fato de estarmos com os avós contribuiu para a liberação geral, já que avós são (ou deveriam ser) por definição, a turma da transgressão. Sei que em nossa rotina, em casa, na rua e nos lugares públicos que frequentamos, não será possível manter o estilo selvagem de ser criança que saiu do armário no sítio. Mas o que importa é que voltamos para casa com algumas chamas mais acesas. Para ele, a de que o mundo com os adultos não precisa ser tão chato, tão preso quanto parece. E para mim, a luz de que o sim deve fazer parte da vida tanto quanto o não, porque é muito bom, necessário e libertador – para crianças e inclusive para adultos – de vez em quando, soltar a voz e gritar bem alto, até o som se perder no infinito.

*texto originalmente publicado no Blog Mamíferas

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