Entre a criança que tenho e a criança que fui

por Josie Zecchinelli em 13/10/2011

A mãe que sou

Quantas vezes você já pensou que quer ser a melhor mãe para o seu filho? Quantas vezes você já se questionou se está fazendo o que é certo ou errado? Julgamentos, expectativas, frustrações, culpa, responsabilidade. Mães vivem mergulhadas neste universo emocional intenso. E eis que ali, na sua frente, você tem um pequeno bebê. Ele ainda não engatinha, ainda não fala. Mas certamente você já observou que ele têm muita personalidade. Você já tem um conceito formado sobre seu filho provavelmente desde que ele estava na sua barriga. “Ele é muito agitado”, ou não, “Ele é muito tranqüilo”. Tudo o que você esperava sobre seu filho começa a influenciar suas experiências com ele. São muitos julgamentos, muitas expectativas. Muitas projeções.

Quantas vezes você já ouviu alguém da sua família chegar perto de seu bebê e dizer: ele é chorão como você era. Ele é quieto demais. Ele é muito guloso. Muitas comparações, muitos conceitos, aquele pequeno bebê é enquadrado o tempo todo. Será que ele é mesmo assim? Será que ele é tudo isso? Vamos com calma. Você é a mãe dele, provavelmente passa muito tempo junto de seu bebê. Você conhece seu filho melhor do que ninguém. A questão é: você se conhece melhor do que ninguém?

A criança que fui

Quando pensamos no que queremos dar de melhor pra nossos filhos, um milhão de conceitos do que seja o melhor podem surgir. É um campo muito subjetivo. Cada cabeça uma sentença, como dizem. No entanto, será que paramos pra questionar estes conceitos o suficiente? Será que o que embasa nossa percepção do que seja o melhor para nossas crianças leva em consideração o que elas realmente precisam em todos os aspectos de sua humanidade? Em tempos de comemoração de Dia das Crianças, sempre surgem diversas questões sobre o que podemos fazer por estes seres que serão os adultos de amanhã. Acho que esta é uma questão séria em nossa sociedade: estamos pensando demais nos adultos de amanhã, esquecendo que hoje, aqui e agora, eles ainda são crianças. Claro, precisamos pensar nos adultos de amanhã, nada contra isso. Mas há muitas formas de se pensar nisso. O ponto que quero ressaltar é que perdemos a conexão com o universo infantil, nos distanciamos muito dessa linguagem.

Minha proposta para este momento é uma profunda revisão naquilo que os pais e cuidadores podem oferecer para realmente compreender qual é a necessidade das crianças que estão à sua volta, de que formas nós adultos podemos realmente nos aproximar das crianças, a partir do universo delas, e não apenas do universo adulto.  A qualidade do cuidado que oferecemos aos nossos bebês e crianças vai depender da qualidade da referência de cuidado que trazemos em nossa bagagem, das experiências de cuidado que tivemos como referência em nossa própria vida. Proponho que tentemos por alguns instantes nos lembrar da criança que fomos, para, desta forma, nos aproximarmos da criança que temos em nossa frente. Quantas vezes você enquanto mãe, ou pai, já se pegou pensando em coisas como:

- Minha mãe diz que quando eu era bebê era chorona igual ao meu filho

- Quando eu era criança, era muito tímida, isso me atrapalhou, não quero que meu filho se sinta assim

- Meus pais me bateram muito, jamais vou bater no meu filho

ou

- Meus pais me batiam e nem por isso fiquei traumatizado, talvez eu use desse recurso de meu filho estiver levado demais

- Nunca recebi um carinho de meus pais, quero dar todo o carinho pro meu filho

- Dizem que se pegar demais no colo, vai ficar mimado

Dizem isso, dizem aquilo, são muitos dizeres na cabeça e sentimentos de uma mãe. Tudo isso acaba ficando entre ela e seu bebê, sua criança. E na correria deste mundo, cada vez mais acelerado e virtual, vai se tornando cada vez mais difícil achar que é possível fazer diferente, ter tempo para fazer diferente, ter tempo para realmente mudar o que se precisa mudar, ter tempo para sequer pensar nisso tudo. Tempo, tempo, tempo, desculpas, desculpas e desculpas, e assim vamos construindo uma relação com nossos filhos. E assim vamos nos distanciando cada vez mais da criança, pois é preciso pensar na escola, no trabalho, nas contas, no relacionamento, em tantas outras coisas.

Neste instante, mais uma vez, tente se lembrar de quando você era pequenina. O que você queria de seus pais? O que era realmente importante pra você? Tente não se apegar às justificativas que podem vir em sua mente: agora você é adulto, você precisou ter algum entendimento do que era possível naquela época, talvez você nem queira julgar seus pais, você os ama e entende o que aconteceu. No entanto, pense realmente no que era importante pra você quando você se aproximava de seus pais ou das pessoas que cuidavam de você. Você queria atenção. Você queria carinho, contato físico. Você queria ser ouvida, vista, reconhecida. Você queria que por apenas um instante sua mãe parasse para brincar com você. Você talvez quisesse que ela apenas lhe deixasse brincar, talvez nem isso fosse possível para você.

Pode ser que se lembre de muitas coisas das quais sentiu falta, talvez não, talvez não consiga se recordar direito da sua infância. A questão é se lembrar que para uma criança, muitas vezes o querer se trata de coisas bem mais simples do que em nosso mundo de adultos. E existe, ainda, um ponto muito importante:  as crianças são sensíveis, muito observadoras. Captam as coisas de uma outra forma. Estão num mundo muito mais não-verbal do que o nosso, elas são muito mais sensoriais. Você já deve ter passado por alguma situação em que percebeu que seu filho sacou muito mais do que estava acontecendo ao redor dele do que você esperava, mesmo quando você fez de tudo para disfarçar. Não dizem que as crianças não possuem travas na língua, que  dizem a verdade? Uma criança está no mundo de outra maneira, muito mais em contato com a realidade do que imaginamos, mesmo que para nós elas vivam no mundo da fantasia. Para uma criancinha, a qualidade da sua presença é muito mais importante do que a quantidade (isso não significa que ela não vá pedir pela quantidade!). Ela sente quando você está presente e quando você não está. Ela sente quando você disfarça algo. Mesmo que não lhe diga. Basta voltar no tempo e pensar em alguma situação em que você sabia o que estava acontecendo e percebia que seus pais tentavam disfarçar. Todos nós temos a capacidade de nos lembrar como é ser criança. Mas isso implica em nos abrirmos para um universo que contém outra criança: aquela que nós fomos. Nem sempre queremos realmente viver novamente as sensações de nossa infância, isso implica em reviver dores e histórias muitas vezes enterradas. No entanto, algo enterrado, não necessariamente desapareceu. Apenas está ali, debaixo da superfície. E quando se trata de nosso universo emocional, nossa história sempre vai estar presente, quer estejamos conscientes dela ou não. Quer decidamos olhar para ela ou não. Ela surge o tempo todo em nossos pensamentos, nossos julgamentos, expectativas, marcas, crenças – elas formam a lente com que olhamos o mundo.

Você irá olhar para seu bebê, para seu filho a partir da criança que um dia foi. A questão é: você está consciente disso? Que parte dessa criança dentro de você vai mobilizar suas ações e escolhas enquanto mãe? Como o adulto que você é hoje vai se permitir impregnar dessas qualidades da criança que um dia foi? Será que estará mais impregnado das dificuldades que ela vivenciou? Que marcas ficaram dessa criança?

Se você não sabe de que forma esses questionamentos podem te ajudar, não fique aflita. O simples fato de se propor a ler este texto, a pensar um pouco nisso, a entrar em contato com tudo isso dentro de você, já é um passo nessa jornada. Ser uma mãe mais consciente é algo trabalhoso, sim, e exige coragem. Coragem de olhar para tudo que está dentro de você, o que é sua força, e o que é sua fragilidade. E perceber que nossa fragilidade também é nossa força, especialmente quando lidamos com crianças. Para acolher a fragilidade de um bebezinho, de uma criança, amorosamente, ajuda muito estar conectada também com a sua própria fragilidade. É mais fácil brincar com uma criança quando nos soltamos e entramos no mesmo nível dela, e então nos vemos criança de novo. Poder chorar quando nosso bebê está chorando e sentir que tudo bem, que não é preciso reprimir nosso próprio choro (há formas e formas de acolher nosso choro!). São pequenas mudanças de olhar e atitudes a respeito de nós mesmas, da bagagem que trazemos, que vão nos ajudar a lidar com nossos filhos de outra maneira, a enxergá-los de outra maneira. Reconhecer nossa humanidade, e também nossa animalidade, pois nossos filhos trazem muito disso para nossas vidas. Basta nos abrirmos, não só para dar, mas para receber este presente que eles nos trazem: a retomada de contato com a nossa própria presença. Quer melhor presente do este no Dia das Crianças?

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4 comentários

  1. Soraia disse:

    É o melhor e mais incrível presente!!! :) Era impossível ver antes o que eu vejo agora, e sei que ainda tem infinitas coisas que verei… Thank you God! Thank you my friend! Thank you mon petit bébé…

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  2. Paula disse:

    Que coisa boa de se ler…
    Acredito, igualmente, que a grande tarefa de ser mãe é aproximar-se de si mesma. Cada mãe, para ser mãe com toda a alma, deve descobrir o amor por si mesma. E aprender a amar é a grande tarefa de nossa existência. Esse amor que a gente experimenta é muito, mas muito grande, muito intenso. E então nos resta apenas deixar fluir o que recebemos e que nos transpassa da cabeça aos pés. E pra isso, é bom que não bloqueamos as forças, que nos deixemos fluir a nós mesmos. Não é nada fácil, mas parece ser uma tarefa de tornar-se humano para poder humanizar!

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  3. Marcos Ott disse:

    Um belo, simplesmente belo empreendimento! Eu sou psicólogo-psicoterapeuta com formação em psicanálise e psicologia analítica! Considero que o início do processo de desenvolvimento emocional é simplesmente a base para as subsequente etapas… E este processo de desenvolvimento tem o seu início, conforme Melanie Klein na preparação emocional da mãe para gerar, gestar e “dar à luz” à sua criança… Parabéns pela iniciativa! Desde que tomei conhecimento deste espaço que o inseri no meu Blog e o recomendo às futuras mães… Feliz Ano Novo!

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  4. Gisely disse:

    ótimo texto… é preciso apenas “se dar conta” do momento em que estamos – de fato – com nossos filhos, olhar para a situação por inteiro, de peito aberto, coração leve e deixar fluir! grande abraço!

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