Existem alternativas para as palmadas

por Flávia Penido em 31/03/2009

criança chorandoBater é feio!

Não sou muito de me arrepender disto ou daquilo… mas tem uma coisa da qual eu me arrependo imensamente. É tão doloroso que eu não sei se consigo admitir… eu já dei palmadas nos meus filhos… Ai, pronto, falei! Que vergonha! As pontuais vezes em que dei palmadas nos meus filhos, fui sempre movida pela raiva e frustração e sempre quando eu estava mais cansada. Se arrependimento matasse… ai… eu tava estatelada que nem lagartixa.

Um dia eu percebi e prometi a eles e a mim que não deixaria mais nada me levar a ficar tão exaltada. Para me irritar no convívio e educação dos meu três filhotes tenho sempre mil razões, mas nenhuma delas é forte o suficiente para me fazer perder a cabeça. Afinal, quem é a criança, eles ou eu?

Falando em ser criança… Puxa vida, eu também já fui criança! Levei várias palmadas em casa! Hoje estou ficando velha, não estou aqui para reclamar do que meus pais fizeram ou deixaram de fazer. Me ensinaram do jeito deles diversas coisas, entre outras, algo valioso! Tomar decisões com responsabilidade e assumir as conseqüências, essa foi uma das mais importantes lições. Com eles aprendi o que muito depois vim a saber o nome: o livre arbítrio!

A ponto de eu ser capaz de reconhecer que na minha educação, a parte das palmadas não foi boa, e posso, então, exercer meu livre arbítrio: Abaixo as palmadas! Bater em criança é covardia! Para as tantas pessoas que dizem que apanharam muito mas que nem por isso são más pessoas… Eu só tenho a dizer: Sim! Mas, o que de fato você aprendeu com as surras? Será que realmente você não teria aprendido de outra forma, sem violência?

Me lembro bem de um grande sentimento de injustiça, e solidão. Me sentia incompreendida por todos, como uma pobre vítima. Ainda me fiz de vitima diversas vezes na minha vida. Eu sentia também uma enorme vontade de me rebelar, e eu me rebelava… e como! Dizia, dando de ombros:

-Não doeu!

Até abaixar o short em desafio eu fiz:

-Bate então, bate, vai!

Era assustador e confuso. Aquela em que eu confiava e que amava me ensinava a me controlar se descontrolando. Fez isso por que era assim que ela sabia, que ela achava ser certo. Mas eu não preciso fazer o mesmo, não concorda?

Eu não bato mais, eu procuro não gritar mais, procuro não me alterar mais com eles. Acredito ser importante que eles resolvam os problemas pelo diálogo, então eu procuro fazer o mesmo. A vida passa muito rápido e se eu não tomo uma atitude correta com meus filhos, como posso esperar que eles sejam corretos no mundo?

Quando eu fui procurar outras formas de sair dessas situações, eu li muitos livros, e aprendi diversas formas de lidar com os sentimentos e comportamentos dos meus filhos e com os meus também.

Não hesite em comprar um bom livro de educação! Folheie alguns, descubra aqueles que não oferecem fórmulas prontas, por que educar não é uma receita de bolo. Leia sobre Attachment Parenting (Educação Intuitiva). Abuse dessas ferramentas que ajudam aos pais a estarem se conectando aos seus filhos. Desenvolva sua intuição com relação aos seus pequenos. Não esqueça dos grandes também. Peça ajuda quando estiver cansada. Não aceite sugestões alheias, a não ser que você tenha pedido. Escolha a dedo as pessoas a quem pedir conselhos em educação.

Livros que me ajudaram muito:

  • A auto-estima do seu filho: Dorothy Corkille Briggs; Martins Fontes
  • Intelligência emocional e a arte de educar nossos filhos; J.Gottman e J. DeClaire; Ed.objetiva
  • Attachment Parenting; Dr. William Sears
  • Attachment Parenting, instinctive care for your baby and young child; K.Allison Granju B. Kennedy; pocket books

Sites:

Não é uma questão de achismo gente! São anos de pesquisas em educação infantil que demostram que mesmo a agressão leve é nefasta, prejudica o aprendizado, e cria danos na auto-estima da criança. Vamos aos fatos estudados e comprovados.

Mas, olha gente, antes de tudo, quero lembrar que eu não sou perfeita, erro sempre com meus filhos, e meu auto-controle não é infalivel, pelo contrário, por isso mesmo eu fui procurar informações e ferramentas para me ajudarem…

Não bater não significa fazer tudo que os filhos querem. Toda criança precisa de limites, deixar eles fazerem tudo o que querem é mais facil a curto prazo, depois fica cada vez mais dificil de mostrar que o mundo tem regras que precisam ser respeitadas.

Porém, existem formas de impor limites e respeito que não são baseadas na violência, nem na nossa raiva e frustração. É um caminho muito, mas muito difícil meeeeesmo, mas ele é bem mais efetivo. Você vai ver como a mudança nas suas atitudes tem efeito sobre a auto-estima de seus filhos por toda a vida deles. Leiam a “Auto-estima do seu filho” e também “Inteligência emocional e a arte de educar nossos filhos” (citados anteriormente), esses livros dão muitas dessas ferramentas.

As birras e mal-criações nas crianças pequenas não são mais que uma demonstração de que a criança está assoberbada com sentimentos muito fortes. Elas estão relacionadas com as necessidades físicas e emocionais não satisfeitas. A birra é um sinal de que ela não se sente capaz de enfrentar as situações.

Existe uma confusão entre o efeito e o que se aprende de fato com as palmadas e outras agressões físicas. O sintoma que incomoda , a birra por exemplo, desaparece. Mas o que acontece? A criança sente medo e para. Ela passa a ter novos sentimentos mais difíceis a enfrentar:

  • Mágoa, pela palmada,
  • Frustração de não ser compreendida,
  • Ressentimento por não ser ajudada pela pessoa amada,
  • Impotência para se vingar por ser mais fraca, e
  • Medo de mais castigos.

Além disso, todos os sentimentos que provocaram a birra serão reprimidos, e tornam a aparecer sobre diversas outras formas. Batendo, você ensina: “melhor reprimir do que expressar seus sentimentos”.

Que tal substituir tudo isso pela escuta ativa da criança? Ensinar caminhos aceitáveis para expressar seus sentimentos hostis sem ações hostis. Não é bem melhor que aprender a reprimi-los cada vez que aparecem?

Encarar a raiva dos filhos de maneira construtiva os ajuda a aceitar todas as partes de si mesmo sem julgamentos negativos. Essa é a base da auto-estima. Auto-estima é tudo, não concordam? Vamos lá, leiam mais a respeito e discutam!

Segue um texto retirado do site da campanha contra palmadas:

Pense 20 vezes antes de bater

  1. Bater em alguém mais fraco é, em si, um ato de covardia.
  2. A palmada tende a ir perdendo seu efeito, a longo prazo, e a criança, aos poucos, teme menos a agressão física. A tendência dos pais é, então, bater mais e mais, buscando os efeitos que haviam conseguido anteriormente.
  3. A palmada não resolve os conflitos comuns às relações pais e filhos: muitas das crianças que apanham, mesmo sentindo-se magoadas e amedrontadas, enfrentam os pais dizendo que a “palmada não doeu”, e o que era apenas um tapinha leve no bumbum, acaba virando uma tremenda surra.
  4. A palmada, aos poucos, pode afastar severamente pais e filhos, pois a agressão física, ao invés de fazer a criança pensar no que fez, desperta-lhe raiva contra aquele que a agrediu.
  5. Os danos emocionais impostos pela agressão física são geralmente mais duradouros e prejudiciais que a dor física.
  6. Bater pode ser uma experiência traumática para a criança, não apenas pela dor física que impõe, mas principalmente porque coloca em risco a credibilidade depositada por ela nos pais, que é a base para sentir-se amparada e segura.
  7. A criança não pode se sentir segura se sua segurança depende de uma pessoa que se descontrola e para com a qual tem ressentimentos.
  8. A criança que apanha tende a se ver como alguém que não tem valor.
  9. Aos poucos, a criança aprende a enganar e descobre várias maneiras de esconder suas atitudes com medo da punição.
  10. A criança pode aprender a mostrar remorso para diminuir sua punição, sem no entanto senti-lo realmente.
  11. Para a criança, a palmada anula a sua conduta: é como se ela tivesse pago por seu erro, e por isso pensa que pode vir a cometê-lo de novo.
  12. A palmada não ensina à criança o que ela pode fazer, mas apenas o que não pode fazer, sem que saiba ao menos o motivo. A criança só acredita ter agido realmente errado quando alguém lhe explica o porquê e quando percebe que sua atitude afeta ou abala o outro.
  13. O medo da palmada pode impedir a criança de agir errado, mas não faz com que ela tenha vontade de agir certo.
  14. A palmada tem um caráter apenas punitivo, e não educativo; ela pode parecer o caminho mais fácil a ser seguido, porque aparentemente tem o efeito desejado pelos pais. É comum a criança inibir o comportamento indesejado por medo, e não pela convicção de que agiu de maneira inadequada.
  15. Muitas das crianças que apanham aprendem a adquirir aquilo que querem através da agressão física e, não raras vezes, apresentam na escola condutas agressivas para com os coleguinhas.
  16. Uma palmada, para um adulto, pode parecer inofensiva. Porém, é importante saber que cada criança atribui um significado diferente ao fato de “levar umas palmadas”, podendo tornar-se uma experiência marcante em sua vida futura. Além disso, independente da intensidade do bater, o ato continua sendo o mesmo: um ato de violência contra um ser desprotegido.
  17. Bater é uma forma de perpetuação da “cultura da violência” tão presente nas relações entre as pessoas nos dias atuais, pois ensina às crianças que os conflitos se resolvem por meio de agressão física.
  18. Bater nos filhos muitas vezes acaba por gerar nos pais fortes sentimentos de culpa, o que os leva a procurar compensar sua atitude posteriormente, “afrouxando” aquilo que procuravam corrigir.
  19. Bater é um atestado de fracasso que os pais passam a si próprios (Zagury, 1985), porque demonstram para a criança que perderam o controle da situação.
  20. O sentido da justiça está em fazer aos outros aquilo que gostaríamos que nos fizessem.

Quando nós adultos agimos de maneira inadequada, não esperamos punição. Alguns autores citam como conseqüência da violência física contra criança e adolescente:

  • Auto-estima negativa
  • Comportamento agressivo
  • Dificuldades de relacionamento
  • Dificuldades em acreditar nos outros
  • Infelicidade generalizada

Autora: Flavia Penido

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7 comentários

  1. Amano Bela disse:

    Bater em crianças é um assunto muito polêmico e muito discutido atualmente. As palmadas ou agressões físicas em geral, das mais leves às mais brutais, ainda são recursos utilizados com frequência por muitos pais e mães na educação de seus filhos. Independente das circunstâncias em que as agressões acontecem ou da gravidade delas, são situações de impacto na vida de uma criança. Nosso intuito aqui é o de trazer o questionamento de suas atitudes enquanto pais e a reflexão sobre as consequências delas na formação do caráter e da subjetividade de seus filhos.

    Muitas famílias se formam, e aqui não digo apenas a família clássica, com pai, mãe e filhos, mas todas as formas atuais de família, sem que os pais e mães tenham se preparado para ter filhos com maturidade e consciência, muitas famílias não têm suporte emocional ou condições sociais ou econômicas para desenvolverem formas mais harmônicas de convívio. Geralmente, nos baseamos em nossas experiências passadas para darmos respostas a qualquer situação atual, nossa mente busca na memória vivências semelhantes para espelharmos o que fazer diante de uma situação que se apresenta. Isso significa que, enquanto pais, a tendência é de buscarmos em nossa memória a referência que tivemos enquanto filhos, as atitudes de nossos pais conosco vão influenciar muito o que faremos quando estivermos na posição de pais, mesmo que não tenhamos consciência disso. Nesse ponto, comumente se abrem duas possibilidades: ou iremos repetir determinados comportamentos, ou iremos fazer o oposto. Essa é uma tendência de extremos, e costuma dificultar as relações familiares.

    Em toda relação humana, a flexibilidade é essencial, e para ser flexível, é preciso saber olhar uma situação sob ângulos diferentes, enxergar que há várias formas de se lidar com uma mesma situação, e não apenas uma ou o seu oposto. Para que isso aconteça, é preciso assumir a responsabilidade e estar disposto a mudar. Toda mudança é um desafio e por isso mesmo, nem sempre bem-vinda, muitas vezes é mais fácil continuar repetindo atitudes. Exatamente por isso, escolhi este texto da Flávia, com uma reflexão interessante sobre as escolhas dos pais em relação às suas atitudes com os filhos.

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  2. Hoje estou muito triste, pois ontem o meu filho de 24 anos deu uma palmada na minha netinha que é filha dele, tão forte que fico marcado na coxa dela, ela é super ativa e eu dou muito dengo a ela, pois ela é a minha primeira netinha,
    o que vocês acham dessa atitude dele, a mãe dela também bate e grita com a criança.

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  3. marilene fernandes de lima disse:

    Estava procurando algo que me ajudasse a concretizar o que ja se sabia.Este foi o marco zero na nova caminhada com meu filho de 3 anos.Sem lamentações pelo que já foi,mais alegre e confiante na nova educação e convivência que estar por vir:Sem violência,porque não era só um ser inocente que se machucava eramos todos nós.Graças a Deus,busquei e encontrei. A todos meus sinceros agradecimentos.
    Muito obrigada.

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  4. Carla Wstane disse:

    Obrigada por este post :)
    a culpa – após uma palmada ou um grito com meu filho de 3 anos – me faz ir em busca de autoconhecimento e alternativas para driblar o impulso. Seu post inspirador e suas referências me ajudarão bastante. Gratidão

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  5. Fernando Tamietti disse:

    Um dos problemas de bater para educar é pq vai direto pra punição, sem passar pela reflexão.
    Essa história do Dr. Arun Gandhi, neto de Mahatma Gandhi e fundador do “Instituto M.K.Gandhi para a Vida Sem Violência” ilustra bem isso.
    “Eu tinha 18 anos e estava vivendo com meus pais no instituto que meu avô havia fundado, a 18 milhas da cidade de Durban, na África do Sul, em meio a plantações de cana de açúcar. O lugar ficava bem distante, no interior e não tínhamos vizinhos. Assim, sempre me entusiasmava a possibilidade de poder ir à cidade. (…)

    Certo dia, meu pai me pediu que o levasse à cidade. Ele iria participar de um encontro político que duraria o dia inteiro, e eu me apressei de imediato diante da oportunidade.

    Aproveitando minha ida à cidade, minha mãe deu-me uma lista de coisas do supermercado e como iria ficar esperando por ele o dia inteiro, meu pai pediu que me encarregasse de algumas tarefas pendentes, como levar o carro à oficina. Quando chegamos ao local do encontro me despedi de meu pai, ele me disse: ‘Me apanhe aqui às 5 horas em ponto. Vamos fazer um lanche antes de retornarmos para casa.’

    Despedi-me e fui rapidamente completar todas as tarefas, corri à oficina onde deixei o carro, combinando de pegá-lo às 4 horas.

    Encontrei-me, então com meus amigos e fomos almoçar, demorando-nos num bate-papo ate á hora do cinema. Estava tão concentrado no filme estrelado por John Wayne, que me esqueci do tempo. Eram 5:30 da tarde, quando me lembrei. Corri à oficina, peguei o carro, passei no supermercado para pegar as compras e corri até onde meu pai estava me esperando. Quando cheguei já eram mais de 6 horas da tarde. Ele me perguntou com aflição e ansiedade: ‘O que houve, onde você estava, por que chegou tão tarde?’

    Não tive coragem de dizer a verdade, então eu lhe disse que o carro não estava pronto e que tive que esperar…

    Meu pai disse, com tristeza: “Filho, eu estava preocupado com seu atraso e liguei para a oficina. O carro estava pronto desde as 3 horas… Creio que algo não anda bem na maneira pela qual o tenho educado, pois você não teve confiança em dizer-me a verdade. Vou refletir sobre o que tenho feito de errado com você, onde tenho falhado como pai. Vou caminhar os 18 km até nossa casa e pensar sobre isto.’

    E assim, vestido com seu traje e seus sapatos elegantes, meu pai fez a pé o longo trajeto até nossa casa. (…) Eu, coberto de vergonha, só pude segui-lo, por mais de cinco horas, dirigindo lentamente atrás dele…
    Vendo meu pai sofrer a agonia de uma mentira estúpida e desnecessária que eu havia dito, decidi, desde aquele momento, que nunca mais na minha vida iria mentir.
    (…) Se ele me tivesse castigado do modo como costumamos castigar nossos filhos, teria eu aprendido a lição? Talvez sim, talvez não…
    Se tivesse sofrido um castigo violento, pode até ser que continuasse cometendo os mesmos erros, só que às escondidas.
    Mas o gesto de meu pai, que ele aprendeu com meu avô, um gesto pacífico e, silencioso de não-violência ativa foi tão forte que nunca mais esqueci.

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  6. Thatiana disse:

    Achei o texto superficial, gostaria de ter encontrado algumas atitudes que nós pais podemos ter ao invés da tal palmada. Flaou-se muito que não deve-se bater nos filhos, o que concordo, mas não deu nenhuma dica de como evitar, como deve ser o diálogo com as crianças?

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