Hora certa para ter filhos

por Josie Zecchinelli em 09/07/2009

bebê sorrindoHá como saber qual é o momento mais apropriado de ter filhos? O que é preciso levar em conta para tomar essa decisão com responsabilidade?

Essa é uma grande questão da pós-modernidade. Hoje em dia, vivemos mais tempo e melhor, temos a ciência, a informação e o conhecimento a nosso favor. Há liberdade na maior parte do mundo. Em compensação, surgiu um fato novo para o qual não estávamos preparados: temos que fazer muitas escolhas, e isso nos angustia. Ter filhos, por exemplo, antes era destino, agora é escolha.

Veja a Natália e o Eduardo, um casal típico da atualidade. São belos, cultos, profissionais, se dão muito bem, têm amigos, praticam esportes, viajam bastante, moram em um lindo apartamento recheado de conforto, arte e tecnologia. Têm um negócio próprio, trabalham juntos porque suas competências são complementares e são muito admirados por isso. Não dá para dizer que falte alguma coisa para esse casal. Mas falta. Eles não têm filhos.

Enquanto estavam ocupados construindo a vida que têm, a questão filhos não estava na pauta, até que o assunto começou a ganhar relevância. Como não sabiam como lidar com ele, fizeram o que os casais pós-modernos fazem: terapia. Mas, claro, a terapeuta não disse o que eles deveriam fazer, só os ajudou a pensar, a considerar todas as variáveis, as perdas e os ganhos.

Natália já vai fazer 35 anos e sabe que está chegando ao limite da idade ideal para ser mãe – do ponto de vista biológico. A natureza é cruel. O homem pode procriar sem problema até depois dos 70, a mulher mal passa da metade disso. A natureza tem lá suas explicações, mas não convence muito os pós-modernos, que se acostumaram a mantê-la sob controle e nesse assunto sentem-se meio impotentes. Para piorar, o Eduardo, que é mais velho, apesar de não aparentar, já tem filhos de uma relação anterior. Ele está, digamos, realizado nessa área, mas, como ele ama Natália, considera ter um filho com ela, até para dar continuidade ao amor deles. Ambos têm consciência de que a vida deles vai sofrer uma mudança radical, mas a hora da decisão chegou, não dá mais para esperar.

Então como decidir com propriedade se este é o melhor momento?

A decisão de ter um filho obedece aos princípios clássicos da tomada de decisões. Quanto mais variáveis forem consideradas, maior a chance de a decisão ser acertada. Nesse caso, há três áreas que devem ser consultadas: a idade reprodutiva, a estabilidade da relação e o equilíbrio profissional e financeiro. Em síntese, dessa decisão tão importante participam os três elementos que constroem nosso ser: a biologia, a emoção e a razão.

Quanto à biologia, sabemos que a mulher tem uma idade reprodutiva ideal, que vai dos 18 aos 35 anos, com alguma variação de mulher para mulher. Antes ou após essa faixa aumentam os casos de infertilidade e de distúrbios genéticos. Ainda que haja inúmeros casos de mulheres que se tornaram mães após os 40, tiveram gravidez tranquila e filhos saudáveis, os especialistas recomendam engravidar antes, para ter a estatística a seu favor.

No que diz respeito ao lado emocional, é necessário dizer uma coisa dura: provavelmente, o maior dos erros que um casal pode cometer é o de achar que um filho vai trazer felicidade. O certo é trazer um filho para compartilhar a felicidade que já se tem. Até porque seria muito cruel e egoísta dar essa responsabilidade para o pequeno ser.

Concordo que um filho dá a sensação de plenitude, de continuidade, de imortalidade. Mas é necessário que ele encontre um mundo pronto para recebê- lo, estruturado o suficiente para lhe dar a chance de crescer de modo saudável. E disso faz parte uma estrutura emocional equilibrada. O melhor que um pai pode fazer por seu filho é amar a mãe dele. Crescer em um ambiente de amorosidade, em que a paz é parte da família, com pais que conversam e trocam carinhos, em que o beijo é democrático e a preocupação de um com o outro é genuína, acredite, é o melhor substrato para a construção de uma personalidade estruturada.

Quanto à lógica, esta se refere ao lado prático da vida. Um filho dá despesa, exige espaço, tempo, atenção. A questão financeira talvez seja a mais relevante, há muitos estudos sobre o assunto. Um dos últimos mostra que, quanto mais os pais ganham, mais gastam, e que o investimento em um filho até que ele complete a faculdade pode chegar à casa de 1,5 milhão de reais. Não pensar no aspecto financeiro seria irresponsável, pois seu filho precisa frequentar locais que colaborem com seu desenvolvimento, estudar línguas, viajar, praticar esportes, ter saúde, acesso a livros, comprar roupas. A lista não tem fim.

Planejamento familiar pode parecer diferente de outros planejamentos porque tem um fortíssimo componente emocional. Sim, tem amor envolvido na questão, mas continua sendo um planejamento.

Apesar do trabalho e da despesa, um filho é motivo de felicidade para o casal

Sem dúvida é a maior felicidade que se pode experimentar, mas estamos diante de duas questões bem diferentes: a maternidade e a tomada de decisões. São dois assuntos que pertencem, em parte, a áreas diferentes da mente humana. A maternidade é uma força própria da condição de ser mulher, e a ela concorrem o instinto e a emoção, com a mesma força. O instinto da perpetuação, com o qual não dá para discutir. E a emoção de ser mãe, de amar da forma mais intensa possível, de se sentir amada, de ver nos olhinhos do filho o verdadeiro sentido da vida. A maternidade está, sim, entre as maravilhas de uma existência. Trata-se de uma experiência que nem sequer pode ser explicada, só pode ser vivenciada.

Como pai que foi meio mãe, posso afirmar que vale a pena experimentar a sensação de gerar, de sentir o sabor da continuidade, da perpetuidade; de participar, através de um ato extremamente amoroso, do enriquecimento deste mundo. A emoção é imensa, sem dúvida. Ter um filho, vê-lo crescer, sorrir, aprender, errar, dar os primeiros passos em direção ao controle de sua vida. Eu experimentei tudo isso e posso afirmar que meus filhos me tornaram melhor. Ensinaram-me mais do que aprenderam de mim. Deram significado a meu trabalho, aos cuidados com minha saúde e até ao amor que sentia pela mãe deles. Sim, é maravilhoso ter um filho, mas…

Mas há a decisão, e esta pertence ao círculo da lógica, ainda que faça parte das funções dela consultar as emoções, sem as quais as decisões se tornariam frias e estéreis. Decidimos o tempo todo, em praticamente todas as nossas atividades, e é possível que seja exatamente nessa obrigação diária que se esconda a grande causa da ansiedade humana. Sim, pois a escolha pressupõe, em geral, várias renúncias, o que nos leva a crer que a escolha nos dá menos do que o que perdemos, e isso gera um desconforto interno chamado ansiedade.

Começamos o dia fazendo escolhas, e continuamos assim pela vida afora. Decisões, decisões. Ansiedade constante. Pense um pouco: se decidir qual sapato comprar já causa uma revoada de borboletas no estômago, imagine o borboletário ao ter que decidir se está, ou não, na hora de ter um filho. Trata-se de uma decisão que irá mudar sua vida, não duvide disso. Aquele pequeno ser assume o comando de tudo à sua volta. Os horários da casa, a estrutura do quarto, os móveis da sala, tudo passa a girar em torno das necessidades e dos desejos do pequeno.

Não que ele não faça sua parte. Quando resolve brincar às 4 da manhã, tira você da cama de mau humor, mas este se desvanece na primeira risadinha que faz aparecer aquelas covinhas na bochecha. Ele tem tudo sob controle. Suas armas são a alegria, o riso, os pequenos movimentos, a descoberta de que tem mãozinhas, o aperto que dá em seu polegar demonstrando dependência e confiança.

Não basta o desejo de ter filhos? O que mais é preciso? É maravilhoso ter um filho, e será tão mais quanto mais agregar valor a nossa vida. A questão é que ele também tira algo, pois é um sugador insaciável de atenção, cuidados, tempo, dinheiro. Há um preço a pagar, e temos que estar preparados para isso. Se assim não for, a maravilha da maternidade, ou da paternidade, perde pontos para a aridez da vida prática. Duas publicações recentes me disseram muito a respeito deste tema.

A psicóloga Vera Maluf, que apoia casais que enfrentam alguma dificuldade nessa área, publicou o livro Fertilidade & Maternidade – O Desejo de um Filho (Atheneu), no qual aborda, principalmente, as possibilidades da reprodução assistida e suas consequências psicológicas. No capítulo chamado “O desejo em nossas vidas”, ela diz que o desejo de ter um filho não é tudo, que precisamos também ter vontade. E explica: “O desejo é dado pela psique, libido, biologia – é um fato natural. A vontade é construída pela consciência, disciplina, interação – é um fato social. Educação é a arte de construir vontades”. Uma visão cristalina.

E o psiquiatra Içami Tiba acaba de acrescentar mais uma publicação a sua lista de livros dedicados às questões familiares e educacionais, Família de Alta Performance – Conceitos Contemporâneos na Educação (Integrare). Nele encontrei uma pequena frase em forma de agradecimento feito por um filho: “Agradeço a meus pais pela ‘predisposição genética’ a ser feliz. E a Deus por ter sido tão ‘mimado’ por Ele”. Que bom se todos os filhos se sentissem estimulados a fazer esse agradecimento. Ele tem um profundo significado: esse filho foi bem esperado e bem recebido, e teve todas as oportunidades da vida. Os pais estavam prontos para recebê-lo e ele respondeu ao amor de ter sido criado com o brilho de existir em plenitude.

Texto publicado na Revista Vida Simples, edição 81, julho/2009.
Eugenio Mussak é educador e escritor.

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11 comentários

  1. Rafaeli Peres disse:

    Adorei as reportagens , em especal esta sobre maternidade, muito me ajudou!!

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  2. wilson corrêa vieira disse:

    Comentário escondido por baixa avaliação. Clique para ler.

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  3. Madilene Santos disse:

    Concordo que ter filhos é crescer e aprender com eles, mas penso que juntamente com as responsabilidades de cria-los e educa-los eles devem ser desejados e amados verdadeiramente e não simplesmente te-los para satisfazer nosso “‘egoísmos” e dar continuidade a nossa espécie.

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  4. Danielle disse:

    Gostei do texto, mas fiquei ainda mais confusa em decidir ou não pela maternidade. Meu marido já me deu “aval” em engravidar, mas eu – já com 37 anos e trabalhando com crianças portadores de deficiência- não consigo me decidir ( essa é a fase mais difícil da minha vida…)!!!!!

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  5. Gabriela disse:

    Espera aí, tem muita gente que tem filhos sem ter marido, em casamento infeliz, sem grana pra viajar, comprar roupa e tal, sem ter a felicidade a priori pra compartilhar com o rebento, sem mil pré condições e… foi a melhor coisa que aconteceu na vida. É só perguntar pra quem tá do lado.
    Não adianta nada querer tudo isso, essa tal condição correta, perfeita para se “poder” ter filhos.
    A vida passa, e com crianças ao lado ela é bem mais gostosa, trabalhosa, louca, rica.
    Quer saber se é o momento? Esqueça esse padrão margarina de viver e crie sua vida a partir da vida que vc tem.
    A viagem é punk e boa, como quase tudo que nos acontece de importante.

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  6. JuLYA disse:

    Eu tenho uma filha de 2 anos e meio!! e é a Razão do meu viver..amo dmais. Tive mais responsabilidade e a certeza que a vida é para ser vivida!!! Nunca deixei de namorar com meu marido… e de poder viajar! Deis de quando nasceu;ela viaja com nós…e faz a viajem mas divertida! Continuo me cuidando;indo em saloes…cuidando das minhas alimentaçãoes!
    Tenho meu próprio negocio..trabalho muito.E é logico;sempre com minha princesa por perto!Faço Facul Adistância;
    E Mulheres…a vida não para…continua!!!
    Tem mulheres;que pensa em arrumar filhos com 40anos…FACILITA TUDO..MAS ESTÃO ENGANADAS!!!
    e depois acaba nao tendo disposição para cuidar de um filho…e sai falando que da muitooo trabalho!!! fiho nenhum dá trabalho!!APENAS TEM MUITA ENERGIA PARA SER GASTA!!
    Ser mãe, é algo divino sem explicação, é um sentimento muito lindo que nos invade sem limites, um sentimento eterno que nos faz virar uma protetora incondicional.
    É você amar alguém intensamente, mesmo sem ter visto o rostinho ou ter tocado nesse serzinho que você carrega em seu ventre e que ainda não lhe foi apresentado, mas que você já tem grande amor por ele.

    Ser mãe é você esperar nove meses por uma pessoinha, com a certeza que ela veio para te fazer muito, muito feliz.
    É você vibrar há cada sorriso, há cada gesto novo que essa pessoinha virá a fazer, que para você será um momento mágico, será uma vitória para ele e para você, pois você fez pare desse instante.

    Ser mãe é você ficar admirando o sono de seu filho(a) e imaginando como será o seu futuro, e com os olhos cheio de lágrimas, você reza nesse momento para que tudo de certo em sua vida, e você sabe que essa pessoinha nem sempre vai poder estar bem protegida nos teus braços, por que em algum momento de sua vida ele terá que seguir sua vida e aprender a andar com suas próprias pernas.

    Em fim! Ser mãe, é agradecer há Deus todos os dias, por ele ter dado a nós o dom divino de gerarmos o ser que nos fará a pessoa mais feliz do mundo, e nos transformarmos nessa pessoa maravilhosa que é “MÃE” palavra tão pequena com significado infinito.

    BJUSS

    JULYA.

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  7. kleyde oliveira disse:

    tenho 22anos ,estou casada a um ano e 5 meses…qro muito ter um filho,lie todos os comentarios muito emocionada,mas naum sei se esse é o momento certo…tenho medo de mudar o meu casamento ja q naum vou ter tanto tmp p meu marido.o qual so passa alguns dias em casa por conta do trabalho..passo 15 dias sozinha e no maximo 8 com meu esposo…ele é muito carente qnd chega q tdas as atençoes p ele por esse motivo naum trabalho..mas somos felizes..ele mas do q eu fica em duvida se ter ou naum..pq nesse tmp q esta em casa a gente sai muitoo..oq eu faço?

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  8. Cristina disse:

    Também tenho essa mesma dúvida, mas um pouco diferente: Tenho 20 anos, meu marido 23, temos quase 2 anos de casados, nos damos muito bem graças a Deus. Temos o desejo em comum de ter filhos, para dizer a verdade estamos LOOOOUCOS para te-los. Financeiramente não estamos muito bem, passamos por alguns perrengues por erros do passado, tudo esta se arrumando aos pouco e no fim da das contas tudo dá certo! Só estamos com medo pela situçao financeira, não sei mas o que fazer pois todos os dias penso nisso e me sinto tão mau por ter que esperar, esse sempre foi meu sonho e ter que esperar esta me entristecendo tanto. As pessoas dizem que é loucura de nossa parte.O que eu faço…

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    • wilson Corrêa Vieira disse:

      Após ler esses comentários, pensei responder aos duvidosos de ter filhos, ou não, se a hora é esta ou não. O que dá para se entender entre alguns pais, é que a dúvida vem da falta de preparo para encarar um assunto tão sério e nada tão duvidoso. Primeiro porque para pensar em ter filhos não basta querer, o ideal é que haja um preparo básico da seguinte forma. Ter e criar um filho exige muita responsabilidade e prioridade para o filho que não pede para ser gerado, por isso vamos pensar como preparo para o desafio. Como nós, pais idealizamos nosso filho? Logicamente todos os pais desejam um filho saudável,inteligente, de bons comportamentos e tudo mais que se pensa de bom… porém uma pergunta que não deveria deixar de ser respondida por todos é a seguinte: Que tipo de pai e mãe seremos para ter o filho que idealizamos? Somos saudáveis para gerar um filho? Sabemos que precisamos abrir mão de vários caprichos para criar um filho, por exemplo se não tiver condições suficientes, nem viajar, para isso há tempo. Dar ouvido a opinião dos outros muitas vezes só atrapalha a opinião que é muito particular do casal. Noites sem dormir,levar no médico, na escola, e fazer muitas mamadeiras são tarefas que dignificam enriquecem e nos dão muito orgulho e prazer quando vemos nosso filhos crescidos. Vejam que fácil não é, mas não tem preço que pague tanto prazer. É isso aí pessoal. em dúvidas.

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  9. Andrea disse:

    Tenho 35 anos sou casada há 1 ano e meio e tb estou passando por esse momento de decisão. Meu marido e eu queremos muito, mas estou com medo da mudança em nossas vidas principalmente porque trabalho longe de casa, saiu de casa as 6:30 e chego ás 18:30 no momento meu marido está desempregado, mas acabou de se formar em direito e já esta com a carta da AOB portanto vemos que é questão de tempo para ele se acertar na carreira. Minha médica diz que posso esperar até os 39. Ainda não sei o que fazer !!!!

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  10. Heloíse disse:

    Parabéns pelo belo artigo! Imagino que nada nos torne tão humanos quanto nos dedicarmos a um filho.
    Estou com 25 anos, casada há quatro, com casa própria e emprego estável, mas ainda com algumas dúvidas sobre ser mãe agora ou depois.

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