O Caderno

por Camila Goytacaz em 24/07/2012

Oi, sou eu, sua mamãe, muito prazer. Começou assim nossa conversa. Não, não foi agora, com ela no colo. Há tempos falo do meu amor e dos meus medos também, porque é preciso que sejam ditos. No meu caso, escritos. Tenho a sensação de que você é uma menina. Diz o primeiro registro em seu caderno. Ali contei tudo pra ela. Não se pode guardar segredos de uma filha ainda no ventre. Quando ficamos mais íntimas, falei do nascimento do Pedro Luis, de como chorei enlouquecida por ter sido afastada de meu filho, levado para UTI neonatal após ser extraído (palavra dura, para ação tão dura quanto) de dentro de mim. De como doeu não ter parido este bebê, mas como me consolava termos tentado juntos. E como mamou loucamente em nosso primeiro contato e dali se tornou um menino criado com muito apego.

Apoiava o caderno na barriga e, sempre que sentia vontade, escrevia. Contei de como era nossa família, quem eram os avós, como era nossa casa, no que acreditávamos, tentei descrever o barulho da chuva, a sensação de entrar no mar e após relatar, dediquei a ela as cores do pôr-do-sol que presenciávamos. O caderno viajava com nossa família e saia da mala quando todos dormiam.  Até sobre músicas falei, das minhas descobertas no Acalanto. Assim se passaram meses, em que fui contando sobre as mudanças em mim, sobre nossa expectativa, a vida que acontecia dentro e fora do corpo. Detalhei, emocionada, o lindíssimo ritual de boas-vindas que fizemos para ela com a parteira Naoli Vinaver. Perguntei sobre a cor dos seus olhos, conversamos sobre a escolha do seu nome.

Fui sempre bem específica em relação ao que esperava do parto. Sim, eu continuava querendo parir, mesmo tendo perdido um filho após o parto. Meu terceiro parto, mas o primeiro e único dela. Então, finalmente na 39ª semana, com a letra embargada, eu disse: “Talvez seja chegada a hora de falarmos sobre o José. Ele foi embora e nos deixou luz e amor. Mas também saudades, medos e um trauma, um vazio. Você, amada filha, nascerá logo depois que completamos um ano da partida do nosso menino. Hoje somos corações fragilizados, que balançaram muito, mas cresceram. E por isso, sua chegada deve ser breve, pois não aguentamos muito mais esperar, e deve ser tranquila, já que não podemos mais sofrer. Venha logo e sem sofrimento”. Expliquei, pedi, e ela atendeu.

E quando completamos 40 semanas e 3 dias, sentindo já as primeiras contrações, sentei para escrever-lhe: amanhã é o dia que nos conheceremos? Que lindo dia será. Meu coração, meus olhos, meus braços, meu corpo, minha mente e meu espírito, te esperam. Vamos parir. Parir é fazer juntas o caminho de cada uma. É separar para unir. Com tanta energia fluindo, não há como não reconhecer que um grande evento espiritual se aproxima. Será sublime, será simples e será seu. Fechei o caderno e embarquei numa tranquila noite de trabalho de parto. Pela manhã, em um expulsivo rápido de menos de meia hora, uma só força, Joana nasceu, linda e rosa na banheira. Esplêndida e cheia de coragem. Às 8h33 do dia 30 do 3. Desde então estamos conectadas como uma só. O azul intenso dos seus olhos me fitando, a conversa continuando. Joana me diz o que sente, com muita doçura. Bem-nascida.

E agora, escrevendo aqui, apareceu a resposta para uma pergunta que me incomoda há tempos: por que dói tanto o coração quando vejo um bebê que não foi bem-nascido? Qual a razão de sentir um aperto ao ver a foto de uma menina de quatro meses sendo forçada a comer papinha, mesmo tendo comunicado, com sua limitadíssima linguagem, que não estava pronta? Por que me sinto aviltada por relatos de mães que não quiseram esperar ou parir e  bebês que não são amamentados, acalentados ou embalados? Agora percebi. Foram privados em sua comunicação. Ninguém está realmente falando com eles. Talvez nem antes, no ventre. Nem durante sua chegada. Não foram ouvidos e não tão surpreendentemente, não são agora.  Cuidam deles, amam, mas não entendem o que têm a dizer sem palavras. Têm companhia, mas devem se sentir solitários neste mundão.

Ainda é cedo, ela só tem dois meses, afinal, mas o fato de Joana ser um bebê tranquilo, que pouco chora, que emana paz, que não teve cólicas, que mama dormindo e dorme mamando, deve ser, pode ser, porque falamos com ela. Escrevendo, desenhando, cantando ou meditando, há infinitas linguagens, verbais e não verbais. Amar não basta. É preciso falar com nossos filhos, primeiro, enquanto ainda estão em outro plano. Depois e principalmente, deixar que se manifestem durante o parto, sua primeira grande expressão. Deixar que digam, que sintam e que sejam. Isso é ouvir. Ninguém é menos mãe ou pai por não falar. Mas talvez os pequenos sintam-se menos amados por não serem ouvidos.

*texto originalmente publicado no Blog Mamíferas

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3 comentários

  1. Maria disse:

    Tô muito emocionada… Já li esse texto 3 vezes e chorei em todas elas. Talvez por está nascendo Mãe junto com meu primeiro filho. Obrigado

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  2. Cecilia SOUSA disse:

    Que texto mais lindo. Me emocionei…

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  3. Suelen disse:

    Camila, eu e meu marido estamos fazendo a mesma coisa cada um escreve como se fosse um diário sobre esta faze, tudo que estamos sentindo as expectativas, as mudanças a descoberta do sexo do bebê tudo, agora descobrimos que é uma menininha e estamos pensando em fazer um baú do tempo e ir escrevendo e guardando lembranças até os 15 anos dela e entregar nesta data especial assim ela vai saber como foi esperada e a amada antes mesmo de sua chegada.

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