O nascimento da grávida

por Josie Zecchinelli em 13/07/2008

Escrever sobre esse tema é como entrar num túnel do tempo. Lembro-me dos meus partos e dos partos que tive a honra de presenciar. Lembro-me de tudo o que aprendi com o “nascimento da gravidez” em meu ser e em meu corpo e no das mulheres que encontrei. Sinto como se a natureza humana insistisse em se perpetuar, apesar de nós, apesar das guerras e das tantas discórdias que somos obrigadas a conviver em nosso cotidiano.

As mulheres continuam parindo e desejando um mundo melhor para viver com seus amores. Sempre que estou em um grupo de mulheres, noto que basta uma mulher começar a falar sobre sua gravidez e parto, para que todas as outras participem e interajam naturalmente. Os nossos ventres são cúmplices entre si. Quando estamos dentro desse universo, falando de nossos ventres e rebentos, não há discórdia, ficamos todas do mesmo lado.

As mulheres adoram falar de sua gravidez, de seu parto e de seus filhos… Precisam passar isso para as mulheres que estão vivendo esta experiência pela primeira vez ou não, pois toda grávida inspira o mesmo sentimento.

Vamos recriar e estabelecer a tradição de falar sobre a gravidez, o parto e o puerpério. Vamos refletir e compartilhar umas com as outras. Já ouvi falar na revolução do coração…

Pois então façamos a revolução dos ventres. Esta publicação estará aberta a isso. Espero que este espaço seja como uma fogueira com mulheres conversando em volta dela. Isso é convite para que você escreva para nós e deponha, confesse e compartilhe sua experiência de mãe. Venha sentar-se junto dessa fogueira. Eu elegi três momentos da maternidade que considero impactantes: quando a mulher descobre que está grávida, quando ela entra em trabalho de parto e quando ela atravessa os primeiro quarenta dias do neném. Educação embrionária No oriente, mais especificamente no Japão, existia um termo para descrever a atitude da mulher diante da notícia de que estava esperando um filho. A expressão era: Taikyo. “Tai” poderia ser traduzido por “placenta”e “kyo” por educação. Quando li isso pela primeira vez recebi um impacto. Ao mesmo tempo em que era um conceito vindo de uma cultura distante, era também algo íntimo e muito sensato. Ampliou-se em mim o sentido maior da gravideze da maternidade. Vi que a atitude da mulher diante da gestação influenciaria a vida do ser que ela carregava em seu ventre.

No Japão, assim que as mulheres recebiam a notícia de que estavam grávidas, voltavam para casa e davam início a uma série de mudanças de ordem prática que abriria o espaço para aquele ser que estava pra chegar. Era o tempo de fazer tudo aquilo que vinha sendo adiado em suas vidas, como se estivessem esperando um agente desencadeador. E esse agente era a chegada de um filho. Jogavam fora roupas e objetos que não mais serviam, consertavam tudo que não estava funcionando e faziam aquela faxina que há muito tempo estavam para fazer. É como se estivessem se preparando para a chegada de um hóspede muito especial, criando espaço dentro de si e dentro da casa para ele.

Se você está grávida, por favor, não tente manter a sua vida como sempre foi, porque além de inútil é desgastante. É como nadar contra a correnteza, é como encontrar o amor e não se entregar, é como querer ir para o paraíso sem querer morrer. Essa é a sua chance para abrir espaço para o NOVO em seu no corpo, em seu coração e na sua vida. Pense nisso. Trabalho de parto Todo o processo da gestação chega a termo quando o trabalho de parto inicia. Até hoje me surpreendo com o comportamento frenético de alguns casais quando tem início o trabalho de parto. Afinal, foram nove meses de espera e preparação para esse evento. É claro que a emoção é grande, diria até que existe uma certa euforia, porém, sinto que o trabalho de parto seria mais bem comparado com um encontro íntimo com alguém que você espera há muito tempo. Sabe aquele momento que antecede o encontro amoroso muito esperado? Pois é… Quando chega o momento dos beijos e das carícias, não há o que pensar, nem o que temer. A respiração toma conta do corpo e a gente entra num estado alterado de consciência. Vivemos fisicamente a possibilidade de sermos toda instinto e intuição. Sinto que esse estado de consciência acontece também durante o trabalho de parto. A resistência causa tanta dor como no coito, porém, se nos entregarmos, o desejo de parir se coloca acima de tudo, assim como o desejo de ter o orgasmo.

No parto, o grande prazer está no momento em que algo vivo, quente e pulsante sai de dentro da gente, enquanto que numa relação sexual, o orgasmo acontece quando realizamos a mesma sensação de um ser vivo quente e pulsante entrando em nós. De uma forma ou de outra, o desejo essencial é o de se tornar um com esse ser.

Pode parecer um tanto anti-religioso, mas sempre senti o parto como um coito invertido com o divino… Foi a sensação mais próxima que tive da verticalidade da consciência humana diante desse universo silencioso e real. No próximo artigo vou falar das características do trabalho de parto: como está nos manuais e como eu vivenciei e testemunhei em outras mulheres.

Puerpério

E agora Maria? O bebê já chegou e você está aí com os seios intumescidos e cheios de colostro, um pequeno ser que depende de você para sobreviver, a casa, os outros filhos, se tiver, o maridão carente ou distante e as tão famosas e frenéticas visitas…

Resumindo: um verdadeiro caos! Mais parece uma travessia no deserto, o grande teste de Jesus quando passou aqueles quarenta dias sozinho enfrentado todas aquelas provações. Pode parecer uma caricatura, mas é assim que o puerpério é vivido interiormente quando esse período não foi previamente elaborado. É difícil sim, afinal é também para isso queservem os nove meses de gestação. Seja o parto em casa ou no hospital, é muito importante lembrar que esse evento determina uma mudança profunda na sua vida e o bebê que acaba de nascer, assim como você, precisa de tempo para se adaptar a essa nova realidade… A essa nova relação. Resumindo, essa é a pior hora para eventos sociais. Restrinja as visitas ao máximo, diga que assim que estiver pronta, você oferece um chá para apresentar o bebê. Receba somente aquelas visitas que podem realmente te ajudar, seja com o bebê, com a casa ou com os outros filhos… Minha recomendação para as gestantes é de quarenta dias de adaptação entre esse novo duo mãe/filho, filho/mãe. Nesse período a relação se estabelece, o leite desceu, você conhece o ritmo das mamadas, aprende a se “ordenhar”, adapta a casa, o marido, os filhos com o novo bebê e principalmente você tem esse tempo para adaptar-se a essa nova vida. E como dizia Salomão “Há tempo para tudo, o resto é vaidade e correr atrás dos ventos”.

Texto de Sandra Ebisawa, doula e escritora, que gentilmente permitiu que o publicássemos em nosso site.

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