O Puerpério

por Flávia Penido em 31/01/2011

puerpério

Vamos considerar o puerpério como o período que transita entre o nascimento do bebê e os seus dois primeiros anos de vida, ainda que emocionalmente haja um progresso evidente entre o caos dos primeiros dias –em meio a um pranto desesperado- e a capacidade de sair ao mundo com um bebê nas costas.

Para tentarmos submergir nas difíceis trilhas energéticas, emocionais e psicológicas do puerpério, creio ser necessário reconsiderar a duração real deste período. Refiro-me ao fato de que os famosos 40 dias estipulados – já não sabemos por quem, nem para quem – têm a ver somente com o histórico veto moral para salvar a parturiente da procura sexual do homem. Mas esse tempo cronológico não significa psicologicamente um começo, nem um final de nada.

Minha intenção – pela falta de um pensamento genuíno sobre o “si mesmo feminino” na situação de parto, lactação, criação e maternagem em geral – é desenvolver uma reflexão sobre o puerpério, baseando-nos em situações que às vezes não são nem tanto físicas, nem tão visíveis, nem tão concretas, mas não são menos reais por isso. Vamos falar, em definitivo, do invisível, do submundo feminino, do oculto. Do que está mais além do nosso controle, mais além da razão para a mente lógica. Tentaremos nos aproximar da essência do lugar onde não há fronteiras, de onde começa o terreno do místico, do mistério, da inspiração e da superação do ego. Para falar do puerpério, teremos que inventar palavras, ou outorgá-las um significado transcendental.

Para nós, que já o transitamos faz muito tempo, nos dá preguiça voltar a recordar esse lugar tão desprestigiado, com reminiscências de tristeza, sufoco e desencanto. Recordar o puerpério equivale, frequentemente, a reorganizar as imagens de um período confuso e sofrido, que engloba as fantasias, o parto tal como foi, e não como havia querido que fosse, dores e solidões, angústias e desesperanças, o fim da inocência e o inicio de algo que dói trazer outra vez à nossa consciência.

Para começar a armar o quebra-cabeça do puerpério é indispensável ter em conta que o ponto de partida é o parto, quer dizer, a primeira grande desestruturação emocional. Como descrevi no livro “Maternidade e o Encontro com a própria Sombra: para que se produza o parto, necessitamos que o corpo físico da mãe se abra para deixar passar o corpo do bebê, permitindo uma certa “ruptura”. Essa ruptura corporal também se realiza em um plano mais sutil, que corresponde à nossa estrutura emocional. Há um “algo” que se quebra, que se “desestrutura” para permitir a passagem de “ser um, para ser dois”.

vulcãoÉ uma pena que atravessemos a maioria dos partos com muito pouca consciência a respeito desta “ruptura física e emocional”. Já que o parto é sobretudo um corte, uma quebra, uma brecha, uma abertura forçada, igual à erupção do vulcão (o parto), que geme desde as entranhas e que ao lançar suas partes profundas para fora destrói a aparente solidez, criando uma estrutura renovada.

Depois da “erupção do vulcão”, nós mulheres nos encontramos com o tesouro escondido (um filho nos braços) e, além disso, com insólitas pedras que se desprendem como bolas de fogo (nossos “pedacinhos emocionais”, ou nossas partes mais desconhecidas), rodando em direção ao infinito, ardendo em fogo e temendo destruir o que tocamos. Os “pedacinhos emocionais” vão queimando o que encontram em seu caminho. Olhamos atordoadas, sem poder crer na potência de tudo o que vibra em nosso interior. Incendiando e caindo no precipício, costumam manifestar-se no corpo do bebê (que é como uma planície de pasto úmido, aberta e receptora). São nossas emoções ocultas que desdobram suas asas no corpo do bebê saudável e disponível.

Como um verdadeiro vulcão, nosso fogo roda por todos os vales receptores. É a sombra, expulsa do corpo.

Atravessar um parto é preparar-se para a erupção do vulcão interno, e essa experiência é tão avassaladora que requer muita preparação emocional, apoio, acompanhamento, amor, compreensão e coragem por parte da mulher e que de quem pretende assisti-la.

Todavia, poucas vezes nós mulheres encontramos o acompanhamento necessário para introduzir-nos logo nessa ferida sangrenta, aproveitando esse momento como ponto de partida para conhecer nossa renovada estrutura emocional (em geral, bastante maltratada, por certo) e decidir o que faremos com ela.

O fato é que – com consciência ou sem ela, acordadas ou dormindo, bem acompanhadas ou sós, incineradas ou a salvo – o nascimento se produz.

Lamentavelmente, hoje em dia, consideramos o parto e o pós-parto como uma situação puramente corporal e de domínio médico. Submetemo-nos a uma situação em que, com certa manipulação, anestesia – para que a parturiente não seja um obstáculo, drogas que permitem decidir quando e como programar a operação e uma equipe de profissionais que trabalham coordenados, possam tirar o bebê corporalmente são e felicitar-se pelo triunfo da ciência. Estas modalidades estão tão arraigadas em nossas sociedades que nós mulheres nem sequer nos questionamos se fomos atrizes de nossos partos ou meras espectadoras. Se foi um ato íntimo, vivido desde a mais profunda animalidade, ou se cumprimos com o que se esperava de nós. Se foi possível transpirar ao calor de nossas chamas ou se fomos retiradas da cena pessoal antes do tempo.

Na medida em que atravessarmos situações essenciais de ruptura espiritual sem consciência, anestesiadas, adormecidas, infantilizadas e assustadas…ficaremos sem ferramentas emocionais para rearmar nossos pedacinhos de chamas, permitindo que o parto seja uma verdadeira transição de alma. Frequentemente é assim que iniciamos o puerpério: afastadas de nós mesmas.

Anteriormente descrevíamos a metáfora do vulcão em chamas, abrindo e rachando seu corpo, deixando a descoberto a lava e as pedras. Analogamente, do ventre materno urge o bebê real, e também o interior desconhecido dessa mamãe, que aproveita o rompimento para correr pelas fendas que ficaram abertas. Esses aspectos ocultos encontram uma oportunidade para sair do refúgio. A sombra (quer dizer, qualquer aspecto vital que cada mulher não reconhece como próprio, a causa da dor, o desconhecimento ou o temor) utiliza a ruptura para sair de seu esconderijo e apresentar-se triunfante na superfície.

O problema para a mamãe recente é que se encontra simultaneamente com o bebê real,  que chora, demanda, mama, se queixa e não dorme…e ao mesmo tempo com sua própria sombra (desconhecida por definição) , inabacárvel e indefinível. Porém, concretamente, com que aspectos de sua sombra se encontra? Cada ser humano tem sua personalíssima historia e obstáculos a recorrer, portanto, só um trabalho profundo de introspecção, busca pessoal, encontro com suas dores antigas e coragem poderá guiar-nos até o interior dessa mulher que sofre através da criança que chora.

O puerpério é uma abertura de alma. Um abismo, uma iniciação – se estivermos dispostas a submergir nas águas de nosso eu desconhecido.

Texto original de Laura Gutman: El Puerperio
Tradução livre de Flavia Penido. Revisão por Amano Bela.

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5 comentários

  1. Beatriz disse:

    Excelente artigo! Obrigada por compartilhar tanta coisa boa no site!
    Abraço,
    Beatriz.

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  2. Katia disse:

    Muito bom e de grande ajuda!
    Precisamos da coragem de nos olharmos por dentro e a certeza que somos forte o bastante para fazer isso e nos transformar, fazer a paz com nós mesmas.

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  3. Sannie Yurie disse:

    Poucas vezes consegui encontrar textos e literaturas que não sugerissem que a inauguração a maternidade deveria ser fácil, delicioso, simples e por vezes até uma escolha. Não sei dizer quantas horas passei em livrarias olhando com deboche para as lombadas dos livros com títulos tão vazios e superficiais quanto seus conteúdos, coisas do tipo: “Como ser uma mãe feliz em 5 passos simples” ou “Mãe, linda e sexy”. Quando tive minha primeira filha tive o sentimento de quem foi enganada. Como assim não havia nos muitos livros que li, nas muitas conversas que tive, nas inúmeras pesquisas que fiz internet a dentro, uma só mensão sobre o inevitável mergulho no desconhecido, sobre o que significaria cruzar a linha de filha para mãe e na inevitável desorganização que se sucede depois disto.
    É um verdadeiro alívio achar textos que são um verdadeiro farol, capazes de guiar as mães perdidas e isoladas num mar de mediocridade que nos força a pensar na materinadade como algo racional, achatado, e não profundo e muitas vezes ilógico. Parabéns pelo texto, gostaria de o ter encontrado antes.

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  4. Adele Doula disse:

    Excelente texto! Adorei! Essa fase é muito delicada e é muito importante falar sobre as transformações que ocorrem no íntimo feminino, invisíveis. Peço autorização para compartilhar este texto no blog Bibliografia da Doula, um blog dedicado às doulas em formação, pois acredito que seja essencial a compreensão desta fase para toda mulher que se proponha acompanhar outra mulher durante este processo.
    Um grande abraço!

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  5. [...] *Fonte: Portal Maternidade Consciente [...]

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