Quem sabe brincar?

por Camila Goytacaz em 12/10/2011

Chegou o Dia das Crianças. Vejo muita gente correndo para comprar o presente, escolhendo o brinquedo mais incrível, e me pergunto: quem vai brincar com estas crianças? Digo isso porque meu filho Pedro Luis, hoje com 3 anos, me pegou de surpresa quando começou a me chamar para brincar. Eu sabia muito bem trocar fraldas, dar banho e fazer papinhas. Mas brincar? Sinceramente, não me lembrava como era e nunca tinha pensado que isso seria minha função, em seu processo de desenvolvimento. Imaginar uma floresta, entrar na toca, ver tudo se transformar e deixar que ele conduzisse aquilo, afinal era a imaginação dele que estava tão fértil, foi um grande aprendizado para mim. Assumo, eu não me recordava do que realmente era brincar. E nem de como é bom brincar.

Existe sim um momento em que eles gostam e talvez até precisem brincar sozinhos, mas convidar à brincadeira o adulto em que confiam é uma grande prova de amor, que fala muito sobre a interação humana, e deve ser valorizada. Nas brincadeiras, os sentimentos, os aprendizados, a vida da criança se expressa. Não brincar com seu filho é, de certa forma, não ouvir o que ele tem a dizer.

Ter uma criança em casa é permitir que a fantasia chegue, é convidá-la a entrar. É reconhecer que, como adultos, já não sabemos mais o que é divertido na brincadeira, e então deixar que as crianças proponham e conduzam a atividade.

Depois que percebi a minha dificuldade em brincar, fiquei mais atenta ao comportamento dos outros. Vi que pouca gente de fato senta no chão para brincar com a criança. Sugerem que ela brinque enquanto cuidarão de suas coisas de adulto. Quando finalmente brincam juntos, tendem a dar ordens do que deve ser feito: encaixe esta peça aqui, coloque a tampa naquela panelinha, mexa assim ou assado.

Isso não é brincar. Não da forma como é preciso, não com liberdade. As crianças precisam exercitar e deixar fluir tudo o que suas mentes infinitas estão enxergando. Outro dia presenciei esta cena: o adulto dizendo assim para meu filho: está errado, este é o limite do desenho, o contorno do esquilo, você não deve pintar fora destas linhas, deve pintar o esquilo, entende? E ele responde, um tanto indignado: mas isso não é um esquilo, é um dragão, você não está vendo o dragão?

Enxergar um dragão onde a figura é esquilo é saber brincar. Passear pela selva e conversar com os bichos que se aproximam, sentir a cachoeira no chuveiro, chamá-lo de jumento quando ele resolveu ser este bicho, mesmo que pareça um pouco estranho aos ouvidos, deixar que a comida seja de chocolate com milho ou que os blocos formem uma torre cuja base é muito menor do que o topo e que certamente despencará, isso é brincar. Fugir da lógica e ignorar a razão. Isso é brincar.

Não sabemos mais fazer isso. A gente esqueceu. Mas eles sabem. E querem nos ensinar. Temos apenas que deixar. Deixar que eles nos conduzam pelo lindo mundo da fantasia, onde leões urgem, bonecos sem cabeça dançam, onde o dia amanhece várias vezes sem que a noite nunca chegue.

Brincar é reconhecer que nós não estamos (ou, ao menos, não deveríamos estar) no controle da vida das crianças. Somos seus pais e cuidadores, estamos aqui para zelar por eles, mas a verdade é que crescem e vivem independentemente da gente, além da gente, aliás, muito além da gente. São indivíduos providos de grande sabedoria, e apenas se a gente permitir, terão a generosidade de compartilhar conosco toda a riqueza que trazem em si.

O que desejo para o Dia das Crianças de todos nós é um dia de menos brinquedos e mais brincadeiras. De menos presentes e mais presença. De menos dar e mais receber. Desejo que, ao menos neste dia, os adultos também consigam ser, de novo e ainda que breve, crianças que brincam.

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14 comentários

  1. Flavia Penido disse:

    Adorei o texto! As vezes não estamos com vontade mesmo, é preciso estar disponivel, ali, presente, nem sempre é facil, mas vale apena se esforçar um pouco.
    Por outro lado, deixá-los livres, se virando sozinhos, sem estar o tempo todo sob o olhar de um adulto também pode ser libertador para a criança.Claro que, somente se ela não tiver acesso aos eletronicos, computador, TV, joguinho eletronicos etc. Acho que tudo é uma questão de balanço mesmo.
    Concordando que geralmente a balança tende para deixar a criança na frente da TV e pronto.
    Me lembro do dia que uma tia disse ao meu filho: – Mas o elefante não é vermelho ele é cinza. Eu quase fui dando a minha opinião.
    Mas prontamente meu filhote respondeu: – O elefante é meu eu faço da cor que eu quiser. Criatividade não se limita, se dá asas! beijos

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  2. LEILA GOYTACAZ disse:

    Camila, a abordagem do tema “saber brincar” está muito bem colocada. O seu olhar de mae, aliado à sua facilidade de comunicação, nos faz refletir e prestar mais a atenção na criança, na tentativa de procurar entrar no mundo imaginativo dela … Quando estou com o Pedro Luis, procuro me deixar levar pela imaginação dele. Ele consegue ver uma cachoeira quando estou vendo apenas o sofá,nao é mesmo? Aí ele se joga na cachoeira … Ele consegue ver um bolo de chocolate num pequeno carrinho amarelo… Eu olho, apenas .. Me dou conta que tb estou aprendendo com o meu neto… Obrigada, minha filha, por ser uma mae tão observadora e ns fazer este alerta!

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  3. Soraia disse:

    Thank you so much for this…

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  4. Marselha caram disse:

    Vc tocou num ponto importante, a maioria de nos pais nao sabemos brincar, e valorizamos muito mais o cuidar, esquecendo-nos que o brincar faz parte do educar, talvez a parte mais solida, a que cria o vinculo, a confianca e a cumplicidade. Adorei o texto e me fez refletir bastante!

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  5. Renata disse:

    Concordo com tudo. E acrescento: criança gosta de brincar, não de ser o brinquedo. Fazer o bebê de boneco ou a criança virar atração, repetindo seus números” para os adultos

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  6. Mia Gartenkraut disse:


    Perfeito este texto!
    Pq as pessoas se preocupam tanto em comprar, comprar, comprar milhões de brinquedos caros?
    Vc arrasa nos textos!
    AMO!
    Beijão

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  7. flavia nabuco disse:

    Brincar é a forma da criança se desenvolver. A criança que brinca, ela cria hipoteses, experiemnta, planeja, vivencia. Nós adultos temos que deixar essa brincadeira livre, sem pré-conceitos. Quanto mais entrarmos no mundo deles, mais ferramentas estaremos dando para um desenvolvimento pleno…Brinquem muito.Não tem nada mais importante!

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  8. Janaina disse:

    Maravilhoso! ótimas reflexões!!!

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  9. MINELA P CECCONELLO disse:

    Parabens Camila, pela clareza e objetividade.
    Creio que deveria ser lido e repensado por pais, avòs e educadores em geral !!!

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  10. Alessandra disse:

    Camila
    Adorei seu texto e como você abordou esse assunto. Na verdade ainda não tinha reparado que há muito tempo não sei o que é sentar no chão e brincar com a minha filha. Nos preocupamos em dar tudo o que eles precisam dar o colo, o aconchego, a segurança, a palavra de apoio, mas, na hora de dar nossa companhia numa brincadeira a coisa muda de figura. É como que se nós, pais, não pudéssemos entrar na brincadeira, pelo simples fato de já sermos adultos.
    Seu texto me fez abrir os olhos e já até começo a me imaginar trocando as roupinhas da Barbie, encaixando os Legos, levando algumas bonecas pra tomar sol…
    Beijos

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  11. Adorei! O texto e saber que vou poder voltar aqui sempre pra te “ler”!
    Ah, e essa foto é linda, linda!
    bjins
    mari

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  12. Lorenza disse:

    Sorte Do Pedro Luiz ter uma Mamãe com esse olhar. Que o brincar livre, o mundo da imaginação,seja uma semente plantada no coração de todos aqueles que acreditam que consumir e mais importante do que construir suas própias brincadeiras… Adorei!

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  13. Ronaldo Nocchi disse:

    Maravilhoso, realmente brincar com crianças nos leva de volta a um mundo magico do amor, muito grato…..

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  14. Penha donato disse:

    59 anos e tem 28 anos que eu aprendi brincar.
    Brincando com minha filha com brinquedos modernos atualmente.

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