Só Peito

por Camila Goytacaz em 10/10/2012

Ela completou seis meses há uma semana e por enquanto, além do leite materno, só ofereci água. Achou meio estranho, mas parece que gostou. Escrevo hoje para encerrar o ciclo de aleitamento exclusivo, celebrando este período de tanta união com minha filha. Cada miligrama dos dez quilos que ela conquistou, cada cantinho de cada dobrinha (e são muitas) vieram da energia que transmiti a ela pelo leite materno. Então, sobre o aspecto nutricional, acho que nada é preciso dizer, basta olhar para Joana para saber que o leite alimenta, faz crescer, dá saúde e imunidade. O que quero compartilhar é o que não vemos, o quanto o peito é para ela alimento da alma, o chamado soul food. A cada mamada, segurança, conforto, amparo, carinho, amor, contato. Quando ela mama, segura forte em minha mão e transpira, movimentando seu corpo todo. Fecha os olhos e relaxa em profundo prazer, às vezes até gemendo de contentamento! No primeiro mês, mamava o tempo inteiro, inclusive enquanto dormia. No segundo mês, mamava e depois dormia por horas, relaxada, tranquila. No terceiro mês passou a me olhar intensamente durante as mamadas, enxergando através de mim. No quarto, parava de mamar para sorrir, feliz, depois continuava. No quinto mês, com suas mãozinhas delicadas e gorduchas, Joana conseguiu segurar o peito que a alimenta e faz isso com muito cuidado e carinho. Tudo isso prova que, ao amamentar, a mãe não está apenas dando, também está recebendo. Recebe o amor e sente a gratidão do seu bebê que está sendo acolhido.

 Em qualquer lugar, a qualquer hora

Durante a amamentação ocorre um grande e secreto diálogo entre mãe e bebê. Uma comunicação pautada pelo fluxo de sucção e produção, com intensa troca de olhares, contato, mensagens. São longas conversas silenciosas que temos durante as mamadas. Isso não quer dizer, no entanto, que é preciso amamentar apenas em um quarto penumbra e 100% do tempo fitando o bebê. Já vi conselhos para não ler ou assistir televisão durante a mamada. Acho isso uma grande bobagem. Se você está mesmo disposta a amamentar em livre demanda, o fará quando o bebê bem entender, em qualquer condição, sem pouco se importar com o que está à sua volta. Isso quer dizer que muito provavelmente, amamentará nos momentos e locais mais improváveis, porque não deixará de viver para amamentar, passará, sim, a viver amamentando! E é esse, aliás, para mim, o segredo do sucesso: estar disponível e oferecer sempre. Assim, temos mamadas em que fico apenas contemplando seus lindos olhos azuis, nós duas, deitadas na cama e recolhidas, mas também já a amamentei sentada no chão, andando, em banquinho, na escadaria da praça, em qualquer cadeira ou mesmo na rede. As situações, as mais diversas: enquanto circulávamos pelo aeroporto, passando no caixa do supermercado, na feira livre, em almoços, jantares e cafés da manhã em restaurantes e padarias, na praça, no ônibus, no carro, no avião, em sala de espera, na porta da escola. Em show, seminário, na plateia, na fila do banco. Já amamentei enquanto assistia televisão, lia, falava ao telefone, digitava, batia papo com as amigas, chorava, brincava com o mais velho, fazia mala ou arrumava o armário. No escurinho do cinema ou em plena multidão, Joana mamou. Porque quis. Sempre que quis. Simples assim. Sem tabus, nem neuras, sem horários, com praticidade. Só entrega. É esta a amamentação exclusiva de verdade. É de verdade porque é sempre e é exclusiva porque se for sempre, nada mais será preciso.

Respeito ao cordão invisível

Da parte da mãe é necessário doação. Cuidados sutis. Quando estou amamentando, presto atenção ao que como, ao que bebo e ao que digo. Evito brigas e estresse, pois sei que também isso pode passar para ela pelo leite. Se ela precisa de algo, sou eu quem toma, para então transmitir, como a camomila, no período das cólicas ou o preparado de gengibre, para congestão nasal. Torno-me o instrumento que leva tudo a ela e honro esta missão com consciência. Por dentro e por fora. Sacio a fome que vem grande e a sede devastadora. Só visto roupas confortáveis, nada me apertando, jamais, e ao vestir já faço o teste, para ver se o acesso ao peito está fácil. Com bebê chorando desesperado, não é o momento para testar, você só vai querer que funcione. Procuro dormir, ao menos descansar o tanto quanto possível. Sei que isso é fundamental para nossa saúde. E não me afasto dela por longos períodos, respeito o cordão umbilical invisível que existe entre nós duas.

Ajuda, sempre que preciso

Mesmo sendo experiente em amamentação, pois é minha segunda filha, não passei ilesa de dificuldades. Tive, lá pelo quarto mês, uma mastite. Dolorida demais. Agoniante. Corri em busca de orientação especializada. Excelente Consultora em Amamentação soube me dizer e o que fazer e me acalmar. Fiz como sugerido e consegui curar, apenas com acupuntura e repouso, sem antibióticos. Outras questões, como a hiperlactação (produção excessiva de leite), também aprendi a lidar nesta gestação, novamente, quando pedi socorro, recebi ajuda. Dicas simples, mas muito valiosas, para o processo se regular. Como saber se o bebê quer mamar? Oferecendo peito. Toda hora? Toda hora. Ele não vai ficar viciado? Não, vai ficar saudável, feliz, amoroso, amado. E quando chegar a hora de comer? Vocês dois, sintonizados que estão, saberão que a hora chegou. Ninguém me disse que é hora da Joana ser alimentada com outras fontes. Simplesmente notei que ela vem, aos poucos, manifestando interesse. Então, devagarinho, vamos começar. Uma fruta, uma coisa salgada, quem sabe. Veremos o que ela acha. Não gostou? Não faz mal. Nenhum mal. Continuará mamando, antes e depois de comer. Talvez até durante, pois alimentos embebidos em leite materno costumam ter ótima aceitação.

Soul Food

Aos poucos ela passará a se nutrir – vitaminas e minerais – com alimentos que não o leite produzido em sua mãe. Aos poucos também passarei a ser mais independente, ela vai me dar autonomia para sair, para nos afastarmos por algumas horas, cada dia um minutinho mais. E ao meu retorno ela encontrará sempre o peito disponível. Vamos continuar, até quando ela quiser, e porque assim desejamos (e nos organizamos para isso) com a amamentação ao seio, a comida da alma, que alimenta – a mim e a ela, em muitos outros níveis.

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3 comentários

  1. Maria Emilia disse:

    Em primeiro lugar, parabéns pelo excelente conteúdo do Portal e desse artigo.
    Em segundo, pelo texto em si. Muito bem escrito (bom conteúdo e bom texto são coisas difíceis de se encontrar hoje em dia).
    Assim como você, penso que a amamentação no peito materno é uma retroalimentação tão necessária quanto a respiração correta: dela depende o melhor funcionamento do nosso organismo – físico e emocional.
    Mais uma vez, parabéns pelo Portal.

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  2. Rosana Evangelista disse:

    Camila,

    Me identifiquei muito com você! Minha Sophia tem 1 ano e 11 meses e ainda mama no peito! Claro que não exclusivamente, mas a hora que quiser quando estamos juntas, pois trabalho todo o dia fora.
    Temos uma ligação para lá de transcendental!! Ela me entende pelo olhar! Amo olhá-la quando está mamando! Ela chega virar os olhinhos nos primeiros momentos da mamada!
    Sempre foi muito saudável! até o momento só teve um resfriado, come de tudo, fala pelos cotovelos e é extremamente inteligente!!
    Camila, parabéns pelo cuidado, atenção e grande amor pela Joana!
    Um abraço!

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  3. Camila Castro disse:

    Que lindo depoimento…
    Amamentei minha filha exclusivamente ate os seis meses, sem considerar a relactação durante o primeiro mes, pq tinha pouco leite, mas nao desisti.
    Agora minha Isabella está com 8 meses, começei a introdução de alimentos conforme vi seu interesse, sem strees, sem neuras, sem pressa… Agora ela come de tudo, e não quer mais o peito… Não sei o que fazer… De manhã ela se alimentava apenas com meu leite, entre as refeições um mamazinho era sempre bem vindo, e antes de dormir, e na mamada noturna era o peito tambem.
    Agora, como ela dorme a noite toda, acho que nao produzo tanto leite, será que isso pode ser a resposta do seu desinteresse durante o dia?
    O que posso fazer? Dicas please…

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