Voltar Atrás

por Camila Goytacaz em 17/03/2014

Voltar atrás. Mudar de ideia. Rever. Desistir. Eu não gostava muito de conjugar estes verbos. Aliás, continuo não gostando! Sou uma pessoa determinada e me sinto segura quando consigo seguir um plano, por isso, em minha vida tudo funciona dentro de um esquema pensado, desde a sequência planejada para editar textos até as atividades de lazer do final de semana. Sempre me deixou feliz pela manhã fazer uma lista, para então chegar ao final do dia e ticar todas as pendências. Acontece que eu tive filhos. E então tudo mudou.

Não consigo mais planejar minha vida com tranquilidade pois a minha agenda depende da condição deles, que depende de uma série de fatores pequenos (e talvez difíceis de enxergar para quem não tem filhos). São questões que envolvem saúde, bem-estar e desenvolvimento. Assim, pela manhã, no lugar da lista, agora a primeira coisa que faço é uma checagem nas crianças: estão bem? A pequena fez cocô? O mais velho conseguiu dormir o suficiente? Nenhum nariz escorrendo? Então começo a atender as demandas que surgem (fome, sede, vontade de brincar, troca de fraldas, mamadas) e só muitas horas depois me sento sozinha e concentrada para trabalhar. Minha disposição me deixaria horas à frente do computador, amo o que faço, mas no julgamento da minha filha de quase dois anos este tempo pode ser mais bem aproveitado: brincando, mamando, descobrindo a casa, explorando panelas, amassando a massinha. Assim, depois de meses tentando trabalhar durante as tardes com a pequena por perto, estressada com as interrupções frequentes, resolvi que era chegada hora de Joana ir para a escola.

O esquema foi organizado: matricula realizada, horário combinado e mochila comprada. Ela feliz me deu tchau e foi com o irmão mais velho para dentro da escola. Tudo exatamente como eu planejei! Sentei para trabalhar plenamente satisfeita e assim permaneci por alguns minutos, até o telefone tocar. Joana não gostou do esquema. E ela é uma criança que, quando não gosta, não tem esquema! Depois de alguns dias confusa, chateada e irritada por não estar conseguindo sequer fazer minha lista de pendências, percebi que não há nada errado. A questão não é sobre mim. Meu planejamento acaba onde começa a vontade dos meus filhos. Minha programação é sujeita à aceitação deles! Assim como entendo que as tarefas mais importantes podem ser adiadas se alguém precisa ir ao pediatra, devo aprender que é possível rever o combinado comigo mesma.

IMG_6381Voltei atrás. Mudei o esquema. Desisti de trabalhar à tarde. Sim, ainda me sinto mal se penso que deveria estar trabalhando quando estou empilhando blocos, mas, por outro lado, me sinto muito bem por estar ouvindo minha filha. Atender à necessidade da criança que pede mais companhia materna, que pede mais tempo para se acostumar com a escola, que pede mais sonecas e menos brincadeiras é um movimento de sintonia, não de desajuste. Depois de quinze anos no jornalismo, acostumada a render muito melhor nas tardes e noites, eu agora escrevo de manhã bem cedo, para estar disponível para ela à tarde.

Este é apenas um dos exemplos de mudança de ideia que vivi recentemente. Desisti de manter a ordem na sala e dei boas-vindas aos brinquedos. Depois de muito planejar e escolher adesivos para a o quarto deles, mudei de ideia e deixei Pedro desenhar nas paredes e decorar o espaço à sua maneira. Já concordei com meu filho quando ele confessou que não estava com vontade de ir para a natação, mesmo que em mim isso ressoasse como falta de determinação. Ele tem cinco anos e – por mais que alguns enxerguem permissividade em minha atitude – meu instinto diz para respeitá-lo quando não sente vontade de fazer algo, sempre que for possível e se isso não trouxer prejuízos a ninguém.

Estou exercitando minha capacidade de flexibilizar, para ajustar o planejado à possibilidade real na rotina com os dois. Hoje sinto que muito mais importante do que dar conta da lista de pendências é dar escuta e respeito à criança. Embora pareça um paradoxo, voltar atrás em alguma decisão que não caiu bem à criança é um passo à frente na conexão com seu filho.

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Um comentário

  1. Juliana disse:

    Boa noite Camila,

    Muito obrigada por compatilhar suas palavras e pensamentos,
    hoje sentei para trabalhar e por acaso entrei no site, conclusão não consegui parar de ler todos os textos, pois eles se encaixam perfeitamento em tudo que estou vivendo, tenho 2 filhos um de 3 anos e outra de 1 ano e (tento) trabalhar em casa, mas hoje não trabalhei pois fiquei lendo os artigos, mas não vou dormir aflita nem ansiosa por não ter trabalho mas sim feliz por poder conseguir ver que as coisas podem ser diferentes.

    Muito brigada por sua ajuda!
    Abraço Juliana.

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