Entrevista com Dr Carlos Correa

por Josie Zecchinelli em 16/01/2008

Entrevista com o Pediatra e Neonatologista Dr. Carlos Correa, o Cacá, concedida ao Maternidade Consciente no dia 27 de outubro de 2007

M.C.: Poderia falar um pouco sobre sua trajetória formativa e seu trabalho atual?

Dr Carlos Correa CacaDr. Carlos.: me graduei em Medicina pela Universidade de São Paulo, em Ribeirão Preto. Depois eu fui pra Porto Alegre e fiz um ano de Centro Lidia Coriat, que é de estimulação precoce de bebês e crianças em geral. Este era um centro integrado que fazia a parte de fisioterapia, psicologia, psicomotricidade. Em seguida fiz genética e residência em Pediatria e depois eu fui para a neonatologia. Não fiz curso de neonatologia, trabalhei 5 anos como profissional e fiz prova de titulo de especialista em neonatologia. Dali para a frente foi tudo assim: fui trabalhando com isso e prestando provas de habilitação, de titulo de especialista. Além disso, eu fiz todos os cursos que a Organização Mundial de Saúde oferece na área: o de aleitamento, que é o curso de 18 horas; o de manejo clinico em aleitamento, curso de 40 horas, curso de 80 horas; curso de aconselhamento; o curso de banco de leite; curso do método de mãe canguru e os cursos que o Ministério da Saúde oferece e que são vinculados à Organização Mundial de Saúde. Eu aplico esses cursos hoje em dia, tenho trabalhado muito com aulas. Basicamente é isso, trabalho com consultório, faço atendimento de parto do Jorge Khun, da Andrea Campos, da Betina Bittar, às vezes do Antonio Julio, às vezes do Marcos Tadeu, que são os médicos que acho que mais trabalham com parto natural em São Paulo.

MC.: O ministério da saúde tem uma política de humanização da assistência obstétrica e neonatal desde o ano 2000, e no entanto, ainda é grande o numero de médicos que não adotam esse referencial de humanização …

Dr. Carlos: na verdade, não existe uma política de humanização neonatal, só de assistência materna, porque o programa Saúde da Mulher, do Ministério da Saúde, é que está engajado nesse projeto, o Saúde da Criança (programa) não está. Isso é uma coisa muito nova e pouca gente mexe com isso. E não é exatamente um tema de consciência de serviço publico. Recentemente foi trocada a coordenação do Ministério da Saúde e agora entrou uma mulher na Saúde da Criança, que é muito envolvida com aleitamento, mas até agora não sei se ela é envolvida com a discussão de assistência neonatal.

MC.: Com relação à atuação do médico pediatra, como é a sua visão do que seria um atendimento humanizado, considerando o tempo que um pediatra fica em contato com os pais e a criança, no atendimento pediátrico de consultório?

Dr. Carlos: O que eu tenho visto, não trabalhando com definição do que é humanização, mas da minha percepção do que é a construção do trabalho de alguém que se preocupa com isso, é você conseguir ver a criança, estar presente com a criança na consulta e ao mesmo tempo conseguir ouvir os pais. A pediatria foi uma área da medicina que foi muito usada pelos governos, principalmente na França, na revolução industrial, como imposição de regras de como cuidar de crianças. Naquela época foi uma tentativa de redução da mortalidade infantil e criação de um mercado de trabalho, de uma mão de obra mais barata, que eram as crianças. A puericultura surge com essa coisa: dizer para as mãess que elas não sabem cuidar dos filhos e que você, como profissional de saúde, sabe, e você irá orientá-la. Daí surge essa palavra orientação. A discussão da humanização vem exatamente com o modelo de aconselhamento, que é muito mais baseado em ouvir, aprender e demonstrar confiança à mulher como cuidadora do bebê. E esse ouvir e aprender vem como uma estratégia de entender melhor o universo que essa criança vive, e quem é essa criança, quem são os pais, como está sendo o processo de adaptação dessas pessoas juntas e fazer invervenções curtas que possam ajudar a melhorar tudo isso.

M.C: Como você vê os reflexos disso na sua prática, qual é o retorno?

Dr. Carlos: Ah, é maravilhoso. Normalmente em minhas consultas eu atendo na sala de brinquedos, eu fico com os pais, eu peço muito que o pai venha na consulta também – fico com os pais da criança e a gente brinca bastante e conversa bastante lá. Depois eu faço o exame físico, e é mais fácil mesmo: a criança me conhece, ela brinca comigo, ela fica mais a vontade, e os pais tem a oportunidade de conversar bastante, perguntar coisas. Eu acho que o que acontece é o vínculo, a relação, além do fato de que o meu consultório é a minha casa, então a relação é diferenciada.

M.C.: Quais foram as influências marcantes no teu processo de formação que fizeram com que hoje você tenha essa prática diferenciada?

Dr. Carlos: eu fiz USP ribeirão preto, que é bem diferente da USP de São Paulo, porque as tumas são bem menores e é uma faculdade em que os professores tem um outro tipo de relacionamento com a escola, mas eu acho que o modelo de assistência materno-infantil ainda era muito feio. Então a primeira influência foi essa, de ter visto partos muito feios. Eu demorei muito para assistir a um parto, e demorei muito para ficar à vontade dentro de um berçário. E, depois, houve algumas pessoas, como a minha chefe Rita de Cássia Basile. Essa mulher tinha uma visão muito especial da criança como sendo integrada ao ambiente; quer dizer, você não fala de corpo, não fala da criança orgânica, o corpo, mas, sim, uma criança funcional, uma criança relacional, sei lá como chamar isto: uma criança que está inserida numa família, num ambiente físico, num ambiente emocional. E é essa criança que vive o processo de saúde e de doença. E além disso, a oportunidade de experimentar coisas, principalmente o trabalho, que vai se constituindo na medida em que você vai tentando, e acertando, errando, se metendo. Quero dizer: não tenho uma história acadêmica forte, eu tenho uma história pessoal forte, de tentativas e erros. Isso que eu acho que foi a maior influência. E ter a oportunidade de ter entrado em contato depois com todos esses treinamentos da Organização Mundial de Saúde: de aleitamento, de banco de leite, de aconselhamento, de método canguru; e de ter podido ser experimental nisso daí também.

M.C.: Você fez análise…

Dr. Carlos: por 14 anos!

M.C: Você acha que isso também beneficiou a sua prática?

Dr. Carlos: Claro! Não beneficiou a minha cabeça (risos), mas beneficiou a minha prática sim. Porque eu acho que aprendi. Eu fiz dois ciclos de 7 anos de análise. Você entra no universo da análise, entende a linguagem da analise, entende pra que serve isso e aonde ajuda. Então isso me dá uma clareza muito grande de observação da relação mãe-bebês, e como eu não sou analista, como eu não tenho nenhum compromisso com postura de analista, isso me facilita mais ainda, porque eu posso dar as minhas opiniões com mais liberdade do que eu acho que está acontecendo. E com mais oportunidade da mãe também, por não estar em uma relação de terapia comigo – apesar de poder ser extremamente terapêutico, de poder repensar a relação dela com o bebê, com o marido, porque acho que vem tudo aí. E tenho tido muitos atendimentos de casais em conflito, e às vezes começa a rolar aqui na consulta a discussão da separação (risos), e às vezes eu fico até um pouco assustado, porque a gente começa a ouvir e as coisas começam a aparecer. Independente da proposta que seja, eu estou fazendo atendimento pediátrico e teoricamente a questão é a criança, mas muitas vezes a relação do casal é que fica em discussão.

M.C: E nesses casos você faz algum tipo de encaminhamento para terapia?

Dr. Carlos: Olha, eu não me meto nisso. Quando as pessoas pedem, eu encaminho. Mas eu não sugiro… eu tenho muita dificuldade de encaminhar pra qualquer coisa. Eu acho mais fácil quando a pessoa acha que precisa de ajuda, e aí sim, oferecer oportunidades de tratamento. Mas, espontaneamente, falar… eu tenho medo disso quando se é pediatra geral, porque você pode ficar com aquela idéia do clinico geral que faz só triagem para um especialista. Não acho que é esse o meu papel… mas quando as pessoas pedem um encaminhamento, sim. E quando é alguma coisa muito específica que a gente ta vendo… mas eu nunca tive casos assim. Eu tive alguns sustos que eu achei que fossem casos assim, da queixa da criança ser criança mordedora, criança hiperativa, e no final das contas não precisei chegar ao encaminhamento porque eu acho que as pessoas começam a falar e elas se dão conta. Eu acho que vira um processo terapêutico na medida em que as pessoas começam a falar e começam a se observar mais, e observar mais a relação com a criança também.

M.C: O que você recomendaria aos profissionais que estejam em formação na sua área, para terem uma qualidade de atendimento mais humanizado?

Dr. Carlos: Eu não sei, não sei o que te dizer… porque no meu caso, foi perfil e sorte. Eu não devo o meu trabalho a nenhuma escola, então eu não sei. Eu fico pensando: eu sou um cara mais sensível, dramático, sofro muito, e foi muito difícil terminar o curso de medicina, então eu fico com pena de gente que vai passar processos que eu passei, porque acho que é muito difícil. Você está trazendo questões sobre as quais eu andei pensando recentemente. Por exemplo, vou te contar um caso de faculdade: eu estou atendendo a uma mulher cuja criança estava com uma gripe, ela deu um anti-inflamatório, a criança não melhorou e ela a levou ao pronto socorro. Ela deu uns dois ou três tipos de anti-inflamatorios. Estou lá, chamo o professor, na frente da mulher, apresento o caso ao professor para me dar a orientação do que fazer. Eu termino de apresentar o caso, conto que a criança estava gripada e tomou uns 2 ou 3 tipos de remédios, e aí o cara (professor) virou pra mim e falou: “olha, não há o que fazer, porque essa mulher está matando o filho dela e não sei o que vamos fazer. Pois se ela quisesse mesmo que nós ajudássemos ela, ela teria vindo aqui antes de começar a matar essa criança.” Entende?! Esse é o perfil do profissional, e é a linha de formação. É um desrespeito muito grande à função materna, na verdade é dizer: você não sabe cuidar da criança. Quem sabe sou eu, então me procure. De novo, então, você vai ver muito isso no serviço de saúde. Orientação. “A pessoa está orientada, eu dei a orientação, eu fiz a orientação” como se fossem pessoas desorientadas e você orientasse o caminho.

Essa é relação de respeito com o outro? Não sei… eu não conheci nenhuma escola que discuta profundamente, seriamente, isso. Acho que ainda vai aparecer muito isso, na obstretrícia, claramente. A questão: não é o interesse da mulher que está em questão, é, na maioria das vezes, o interesse do profissional, a visão do profissional, e não do cliente. Se a medicina deixasse de ser vista como sacerdócio, e fosse vista como prestação de serviços, de uma forma legal, prestação de serviços pensando em qualidade, pensando em como referência de qualidade o cliente, eu acho que talvez a coisa ficasse diferente. Mas não é pra agora, isso ainda vai demorar…

M.C.: saiu recentemente uma reportagem falando sobre a nova puericultura, sobre o aspecto de considerar a individualidade de cada bebê. Como você vê isso?

Dr. Carlos: Maravilha, é isso mesmo. A puericultura, como eu aprendi, era assim: você acorda o filho a tal hora, dá o suco a tal hora, dá leite a tal hora, e o leite você faz assim, a comida você faz assim. E não é uma coisa de entender a dinâmica familiar, as possibilidades daquela família, daquele bebê. E eu acho que é isso, a resposta: humanização é essa possibilidade de individualização do processo, e pra isso é preciso você parar e ouvir antes de falar.

Carlos Correa é médico pediatra e neonatologista, é consultor internacional em aleitamento materno, Treinador de Reanimação Neonatal pela Sociedade Brasileira de Pediatria e avaliador da iniciativa “Hospital Amigo da Criança” pelo Ministério da Saúde. Atualmente, reside e atende em São Paulo.

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5 comentários

  1. Carol disse:

    Olá Cris, olha o pediatra da Má, numa entrevista…

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  2. Flavia Penido disse:

    Quem dera todos pediatras fossem iguais a você…
    Ficou feliz que alguém começou a pensar em escutar o casal e perceber a dinamica antes de entrar com o exame fisico e as receitas prontas.

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  3. KelleN disse:

    Ola gostaria de saber se posso fazer algumas perguntas ao Dr. Carlos é um trabalho de escola tenho que entrevistar um pediatra me respondam o mais rapido possivel obrigada :D

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  4. marian disse:

    gostei muito da entrevista, tenho que fazer um trabalho igual a esse, e com certeza vou me inspirar nele. MT BOM!!

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