Entrevista com Josie Zecchinelli (Amano Bela)

por Josie Zecchinelli em 01/08/2009

Portal Maternidade Consciente: Como é o seu trabalho com as gestantes?

Josie Zecchinelli: Durante a gestação, a mulher fica mais sensível, sua percepção fica mais aguçada, seus sentidos mais apurados. Isso é uma preparação da natureza para que a mulher se torne mãe. Ela necessitará dessa sensibilidade extra para cuidar de seu bebê, para conhecê-lo bem, saber do que ele precisa. Além disso, o psiquismo da mulher também se modifica, ele está preparando o terreno para que essa mulher se torne uma mãe melhor. Qualquer questão não resolvida para esta mulher acerca de sua vida pode ficar mais evidente durante a gravidez, isso virá à sua consciência, para que ela possa resolver e para que isso não afete a sua maternidade. Essa é a sabedoria da natureza, é a preparação da mulher em todos os âmbitos: físico, emocional, mental e espiritual. Por isso, a gravidez pode ser um período de tremenda revolução na vida de uma mulher, pode fazê-la se deparar com uma série de questões que talvez ela não quisesse ver antes, pois ela precisa amadurecer para se tornar mãe.

A gestação e o parto fazem parte do rito de passagem de filha para mãe. São momentos especiais e com um potencial de transformação profundo. No entanto, atualmente, a maioria das mulheres vivencia a gravidez numa grande correria. Os rituais de passagem se perderam com as antigas tradições e muitas mulheres acabam vivenciando este período de forma muito solitária e sem curti-lo devidamente. Muitas mulheres não têm mais em sua vida o contato que as antigas gerações tinham com a maternidade, de acompanhar de perto a criação dos bebês da família, o contato freqüente com bebês. Muitas só vão pegar no colo um bebê pela primeira vez quando é seu filho que nasce. Todo esse distanciamento da maternidade trouxe muitas modificações na vivência das mães atuais.

O índice de problemas e dificuldades aumentou muito, muitas mulheres passam por tristeza e depressão seja na gestação e/ou no pós-parto, e muitos desses problemas estão relacionados à falta de preparo, de suporte com relação a todas essas transformações que surgem com a gravidez. Quanto mais a mulher puder se preparar, olhar mais fundo para esse período de sua vida, ter suporte em suas mudanças, melhor será para ela, seu bebê e sua família. O trabalho que realizo visa exatamente trazer a possibilidade desse cuidado mais atento com as questões relativas à maternidade. Seja por meio de um trabalho individual, a mulher consigo mesma, ou através de atividades de grupo, nas quais ela troca experiências com outras gestantes e mães, a preparação para a maternidade pode fazer toda a diferença para trazer às mães mais consciência em suas vivências e mais qualidade e alegria às suas vidas. A partir do momento em que a mulher pode relaxar, sentir a conexão com seu corpo, suas emoções, aceitar aquilo que está presente em sua vida naquele momento e ir esclarecendo estas questões, isto terá reflexo na sua relação com o bebê, com seu companheiro e com sua família, fortalecendo os vínculos positivos e amorosos e dissolvendo os nós que possam estar ocasionando vínculos problemáticos.

O foco de meu trabalho não é apenas em tratar problemas que as gestantes apresentem, este é um trabalho aberto a qualquer mulher que queira trazer mais qualidade à sua vida, mais consciência, e trataremos do ser integralmente, unindo mente, corpo e sentimentos, e também trazendo a conexão com o bebê neste processo.

Portal Maternidade Consciente: Como isso pode beneficiar a mulher no momento do parto?

Josie Zecchinelli: O parto é o clímax de tudo o que a mulher vivenciou na gestação. É o momento mais esperado, e efetivamente o momento em que ela se tornará mãe, o momento da separação mãe-bebê. Pela primeira vez ela vai se deparar com o bebê como um ser separado dela, ali ela deixará mesmo de ser apenas filha para se tornar mãe. O trabalho de parto é também o clímax de toda a liberação hormonal que acontece durante a gestação. O nível de hormônios liberados atingirá um grau que em nenhum outro momento de vida acontece, exceto durante um parto. Essa enxurrada hormonal tem um propósito: auxiliar a saída do bebê e facilitar a vinculação mãe-bebê. No entanto, qualquer situação que gere tensão para a parturiente pode afetar a liberação hormonal, e prejudicar o andamento do trabalho de parto. Quanto mais a mulher estiver consciente de como usa seu corpo, do efeitos que a tensão acarreta para ele, de como ela pode interferir para dissolver as tensões e relaxar, maiores as chances de ter um trabalho de parto mais tranqüilo, melhor para ela e o bebê.

Durante a preparação emocional para o parto, a mulher aprenderá a se observar, percebendo como suas emoções afetam o seu corpo e a lidar melhor com essas emoções, o que favorece também para que ela lide melhor com momento do parto. Além disso, se a mulher trabalhou seus medos e inseguranças durante a gestação, é possível que ela se sinta mais segura e ativa em relação ao parto normal, podendo fazer escolhas mais conscientes com relação ao que quer para o nascimento de seu bebê.

Portal Maternidade Consciente: E no pós-parto?

Josie Zecchinelli: Os benefícios de uma boa preparação durante a gestação para o pós-parto são muitos. Saber lidar com as emoções será fundamental no momento em que a mãe estiver com seu bebê, pois ela terá que lidar com situações imprevisíveis, que exigirão sua capacidade de dar respostas, muitas vezes rapidamente, e de forma adequada, com respeito a ela e ao bebê. Quanto mais segura e tranqüila a mãe estiver, melhor para ela e o bebê. E mesmo que ela fique ansiosa, angustiada, ter se preparado fará com que ela acesse as experiências que teve na gestação e possa utilizar a auto-observação e outras técnicas aprendidas em nosso trabalho para poder lidar melhor com aquela situação. Além disso, se a mãe tiver passado pela gravidez e parto de forma tranqüila, com suporte emocional, as chances de ter problemas no pró-parto são muito reduzidas. A depressão no pós-parto muitas vezes teve seu início na gestação, a mulher certamente deu sinais de que algo não ia bem e o contato com o bebê, principalmente nos primeiros dias, pode trazer uma situação de crise que fará com que as suas questões se tornem ainda mais evidentes.

Se a mulher não conseguiu ter suporte durante a gravidez e manifesta questões emocionais após o nascimento do bebê, ela também pode nos procurar para receber todo o suporte de que necessita. Especialmente no período inicial do pós-parto, no primeiro mês de vida do bebê, há a possibilidade da mãe se sentir ansiosa, insegura ou triste por algum motivo, ela ainda está conhecendo o bebê e também se conhecendo como mãe, e neste momento é essencial que ela tenha suporte. Mulheres que já tenham outros filhos também podem passar por essa situação, pois cada gestação e bebê são únicos, e o fato de ter várias crianças para lidar ao mesmo tempo também pode trazer à tona questões emocionais.

Muitas vezes as mães ficam excessivamente preocupadas com o bebê, se sentem culpadas se não estão bem, por acharem que tudo deve ser em prol do bebê. Reforço que quanto mais a mulher puder cuidar de si, se conhecer, lidar com suas emoções, melhor será para ela e o bebê, pois a mãe estará ali inteiramente presente e não mais fragilizada, torturada por suas emoções. O mais importante é a qualidade da atenção que a mãe oferece ao seu filho, e não apenas estar ali disponível para ele o tempo todo. Portanto, qualidade de vida da mãe, é qualidade de vida para o bebê e a família, não apenas na gestação, parto e pós-parto, mas para toda a vida.

Portal Maternidade Consciente: E os pais, são incluídos neste trabalho?

Josie Zecchinelli: Sim, tudo o que foi dito vale também para os pais. A diferença é que o homem não vivenciará a gestação e parto da mesma forma que a mulher, porque ele não tem um bebê dentro de si. No entanto, pesquisas recentes mostram que os pais têm a capacidade de sentir junto com a mulher, quando participam ativamente da gestação. Eles também são afetados pela gestação, uma série de mudanças também estão ocorrendo com eles.

Durante a gravidez, a inserção do pai em atividades conjuntas com a gestante vai favorecer a vinculação deste homem com seu bebê e também auxiliar para que ele tenha empatia pelas vivências da mulher durante a gestação, parto e no pós-parto. Se o companheiro da mulher estiver a par do que se passa com ela e também puder compartilhar suas expectativas, frustrações, se conectar com suas próprias emoções, provavelmente será mais fácil para ele participar mais ativa e afetivamente da convivência com o bebê após o nascimento dele. O homem também estará passando pelo rito de passagem de filho para pai, ou para uma nova forma de ser pai, caso já tenha filhos, portanto, esse é um momento importante de sua vida e preparar-se para isso só lhe trará benefícios. Muitas vezes é apenas a partir do nascimento que o homem vai lidar com essas questões, por ainda haver uma cultura forte de que a gravidez é um momento da mulher.

 

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3 comentários

  1. Nena disse:

    Estou com uma bebe de 7 dias tive o parto domiciliar mais estou emocionalmente muito sensível nao estou conseguindo ter leite o suficiente… Estou com medo de estar entrando numa depressão pos parto.

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  2. LILIAN SOUTO disse:

    Oi Bela,
    Fui uma de suas alunas do Gama, e é a primeira vez que entro
    no site. Estou maravilhada com os textos e artigos, todos muito bem esclarecidos e de uma sensibilidade impar.
    Parabens pela qualidade do serviço.
    Beijo.
    Lilian Souto

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  3. Susana Pereira disse:

    Esta mensagem, que Amano Bela nos tenta transmitir, é de extrema importância. Contempla uma enorme lucides sobre o que pode ser a qualidade de vida mãe-bebé (e certamente de todos os que lhes estão próximos). A maternidade é sem dúvida um estado particularmente importante na vida da mulher, e da criança, na medida em que envolve a integração de um novo ser humano no mundo através do seu seio familiar e social. Esta fase da vida deve por isso ser vivida com grande qualidade, equilíbrio emocional, consciência e bem-estar. Bem haja.

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