baby blues, maternescência e depressão pós-parto

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Passamos até 42 semanas possíveis de uma gestação vivendo muitas alterações corporais, fisiológicas, relacionamentos e contextos de nossa vida e hoje sabemos que até mesmo nosso cérebro passa por mudanças que podem ser temporárias ou definitivas. Vivemos numa realidade cultural em que se espera que a mulher retorne rapidamente ao que era, logo que seu bebê nasce, desconsiderando o impacto e tempo próprio de retorno e recuperação de todas estas mudanças. Para além do fato de que aquela mulher que se foi antes da gravidez, na verdade, nunca mais será exatamente a mesma de antes. Viver tudo isso no pós-parto, ou como preferimos chamar, no puerpério, é viver alguns conflitos internos e externos que são também impactantes em nossa vida.

Temos, após o parto, um corpo em recuperação de uma experiência complexa de nascimento e de todo um tempo anterior de gestação. Temos um novo corpo, que agora produz leite e novo cenário hormonal. Temos um bebezinho que ainda não fala e precisamos entender as necessidades dele. Somos, nós mães, as responsáveis pela sobrevivência deste bebê, pela grande importância que temos em relação à sua nutrição e cuidados físicos. Temos agora um novo quadro diário de privação de sono, já não dormimos horas seguidas nem a quantidade total de horas que dormíamos antes. Temos necessidades nossas que deixam de ser atendidas como antes, temos mais fome e precisamos de mais líquidos em função do aleitamento. Nosso cansaço vai se acumulando facilmente. Diante de tudo isso, como imaginamos que esta mulher estará se sentindo?

Alterações emocionais, oscilação de humor fazem parte deste período em que nos sentimos mais vulneráveis e sensíveis, seja pelo novo contexto hormonal, seja pela perda de controle sobre nossa realidade. Podemos estar mais chorosas, chorar sem nem saber o motivo, estarmos mais emotivas. Podemos sentir bastante irritabilidade, por muitos motivos já citados aqui. Podemos estar melancólicas, sentindo saudade de algo que não conseguimos dizer exatamente o que é: pode ser da barrigona de gravida e do bebê dentro de nós, pode ser da liberdade de antes, pode ser da visibilidade e atenção que tínhamos, pode ser do nosso corpo anterior ou de nossas relações. Podemos ter muitas sensações confusas, afinal nossa identidade está passando por uma grande transformação: a nova mulher e a mãe estão ambas nascendo, aos poucos. E no meio disso tudo, pode ser que leve algum tempo pra nos sentirmos realmente mãe desse bebê, para aprendermos e entendermos essa expressão de amor. Talvez haja sentimentos de inadequação por conta disso, e faz parte. Ao longo desse primeiro mês após o parto, podemos sentir tudo isso e normalmente o nome técnico que se dá na área de saúde para estas alterações todas é melancolia ou tristeza materna, baby blues ou blues puerperal. Eu gosto mais de um novo termo, designado por uma antropóloga que considera essa transformação que uma mulher vive na transição para a identidade de mãe similar ao que vivemos na adolescência, quando também passamos por uma mudança de identidade em meio a mudanças corporais/hormonais significativas. Este novo termo seria a matrescência, ou maternescência.

O baby blues aqui fala então destas primeiras 3 a 4 semanas após o nascimento do bebê, e considera-se que a intensidade dessas sensações tende a diminuir com o passar destas semanas. Se o tempo está passando, já se aproxima o fim do primeiro mês, e notamos que não há redução na intensidade dessas sensações, que essa mulher está cada vez mais queixosa, com dificuldades, se lamenta mais, ou está visivelmente mais afetada, ou se ela passa a não estar mais tão envolvida com os cuidados com o bebês ou em sua vinculação com o bebê, pode ser o início de um quadro de depressão pós-parto. É importante conversar e colocar a possibilidade de apoio especializado: psicoterapia em primeiro lugar, grupo de apoio entre mães e psiquiatra caso perceba-se que as alterações já estão dramáticas ou intensificando muito rapidamente, caso essa mãe sinalize estar no limite, estar muito esgotada emocionalmente.

No caso de uma depressão pós-parto, ela pode acontecer dentro deste primeiro ano após o parto, mas é mais frequente de se manifestar nos primeiros meses. Mulheres que já tenham tido depressão em outro momento da vida tem maior chance de desenvolver depressão perinatal - ou seja, depressão já na gravidez ou no pós-parto. É muito importante que quem estiver à volta da mulher possa observa-la e cuidar dela, para que ela possa continuar a cuidar de seu bebê. Depressão não é frescura, e todas estas alterações que se vive num puerpério são significativas, o acolhimento e apoio se faz muito necessário.

Fatores de risco para desenvolver depressão pós-parto/depressão perinatal:
-história anterior de depressão
-condições sociodemográficas desfavoráveis: mãe solo, baixa renda ou desemprego, baixo nivel de suporte social, problemas no relacionamento com parceiro(a) ou família
-condições de saúde que envolvam risco diferenciado, elevado (gravidez de alto risco, parto de alto risco, parto de emergência, prematuridade, internação em UTI)
-ausência de ou pouco acompanhamento pré-natal
-consumo de drogas, alcool, tabaco

Fatores protetores em relação ao desenvolvimento da depressão perinatal:

-boa vivência de gravidez e de parto
-parto fisiologicamente respeitado, com acolhimento da mulher
-Suporte social adequado, tanto da família, na relação conjugal ou de
serviços que auxiliem na preparação física e psicológica para as
mudanças que fazem parte da maternidade

Caso você queira lidar melhor, aprender novas formas de cuidar de suas emoções e funcionamento mental, receber apoio adequado, é muito importante procurar um profissional de saúde que esteja preparado, que seja atualizado e relação ao olhar para a importância destas alterações no puerpério.

Fontes iniciais de encaminhamento para profissionais mais próximos de você que atuem com este embasamento podem ser psicólogos perinatais, educadoras perinatais, doulas, consultoras de amamentação, enfermeiras obstétricas/obstetrizes/parteiras urbanas atualizadas, pediatras, obstetras e psiquiatras que atuem com foco em humanização da assistência e compreensão da saúde mental perinatal. Se não houver algum destes profissionais próximo de você, procure a rede de assistência mais próxima, seja um profissional de seu convênio de saúde ou da rede pública.

Costuma haver atendimento psicológico gratuito nas universidades/instituições de ensino ligadas a psicologia. Há atualmente profissionais que fazem também acompanhamento online. Grupos de mães também podem ser fonte de apoio inicial e de indicações locais. Não se isole, converse com amigas que tenham escuta acolhedora, busque formas de autocuidado mais frequente, mais momentos de descanso e suporte entre amigos/família de forma emergencial até conseguir o apoio de que necessita no nível profissional.

Texto: Josie Zecchinelli
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Abaixo, ao fim da página, coloquei dois videos que fazem parte do documentário O Começo da Vida. O primeiro vídeo fala sobre baby blues (apesar da taxa colocada pela médica, a taxa mundial de ocorrência de baby blues é em torno de 70 a 80% das mulheres), o segundo video é sobre depressão pós-parto.

E se você quer começar a visualizar um puerpério mais bem cuidado do ponto de vista também de sua saúde mental e emocional, nós preparamos um guia de visualização com algumas perguntas e pontos de reflexão sobre escolhas e organização.

É gratuito e você pode baixar clicando no botão a seguir. Que seu puerpério seja envolvido com respeito, cuidado e bem-estar físico, mental e emocional!

Josie Zecchinelli